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Vinho

Nível de enchimento: o vinho que se oferece em cada garrafa sem ninguém decidir

Numa garrafa de 75 cL a lei tolera 15 mL a menos, mas a média não pode ficar abaixo do nominal. Encher a mais pode custar 83 garrafas por 1000 litros.

· Por Guilherme Silva · 9 min de leitura

Uma garrafa de vinho de 75 cL tem de cumprir três regras de enchimento, fixadas pela Diretiva 76/211/CEE. A média do lote não pode ficar abaixo de 750 mL. O erro máximo admissível por defeito é de 15 mL, e só uma pequena proporção de garrafas o pode ultrapassar. Nenhuma garrafa com mais de 30 mL a menos pode levar o símbolo ℮. Para não falhar a primeira regra, a maioria das linhas enche acima do nominal. É esse excesso, multiplicado por dezenas de milhares de garrafas, que se oferece sem ninguém o ter decidido.

O enchimento é um daqueles números que se afinam uma vez, quando a enchedora é instalada ou revista, e depois ficam. Muda o vinho, muda a temperatura, muda a garrafa, e o nível continua o que era. Quando se mede, mede-se para confirmar que não se está abaixo do mínimo. Raramente se mede para saber quanto se está acima.

O que a lei exige

A Diretiva 76/211/CEE, sobre o pré-acondicionamento de produtos em pré-embalagens, aplica-se a produtos vendidos em quantidades nominais constantes entre 5 mL e 10 L, o que inclui a garrafa de vinho. O Anexo I estabelece três condições para as pré-embalagens:

  1. O conteúdo efetivo não deve ser inferior, em média, à quantidade nominal.
  2. A proporção de pré-embalagens com erro por defeito superior ao erro máximo admissível tem de ser suficientemente baixa para o lote passar os controlos por amostragem definidos no Anexo II.
  3. Nenhuma pré-embalagem com erro por defeito superior a duas vezes o erro máximo admissível pode levar o símbolo ℮.

Para quantidades nominais entre 500 mL e 1000 mL, o erro máximo admissível por defeito é de 15 mL.

GarrafaNominalErro máximo admissívelLimite para o símbolo ℮
75 cL750 mL15 mL (735 mL)30 mL (720 mL)

A diretiva diz ainda que, nos produtos medidos em volume, o conteúdo que conta é o volume a 20 °C, qualquer que seja a temperatura a que se fez o enchimento ou o controlo. Um vinho engarrafado frio ocupa menos volume do que ocupará a 20 °C, e um vinho engarrafado quente ocupa mais. O nível certo na linha depende da temperatura do vinho nesse dia.

Porque é que as linhas enchem a mais

A primeira regra é sobre a média, e é a que mais preocupa. Nenhuma enchedora põe exatamente o mesmo volume em todas as garrafas. Se o nível for regulado exatamente para 750 mL, metade das garrafas fica abaixo e a média corre o risco de cair. A forma mais simples de nunca falhar é encher um pouco acima.

O problema está no “pouco”. Quanto maior a variação da enchedora, mais acima é preciso encher para a média ficar segura. E como raramente se mede a variação real, o excesso tende a ser mais do que o necessário.

Quanto custa o excesso

A AWRI dá um exemplo no seu trabalho sobre rendimento de vinho por tonelada: em 1000 litros, uma pequena alteração como encher as garrafas acima do volume necessário pode significar 83 garrafas a menos, uma perda de 6% do stock. Isso corresponde a garrafas com perto de 800 mL em vez de 750 mL, um caso extremo que mostra a ordem de grandeza.

Excessos mais pequenos, e mais comuns, fazem-se de cabeça:

Excesso médio por garrafaVinho oferecido em 100 000 garrafasEquivale a
2 mL200 L267 garrafas
5 mL500 L667 garrafas
10 mL1000 L1333 garrafas

Cálculos a partir do excesso médio indicado, para garrafas de 75 cL.

Cinco mililitros por garrafa é menos de 1% do volume e não se vê a olho. Numa adega que engarrafa 100 000 garrafas por ano, são mais de 600 garrafas de vinho acabado que saem sem ser faturadas. Cada uma com o custo completo do lote: uva, vinificação, estágio. Explicamos como esse custo se acumula no artigo sobre o custo real por garrafa.

O nível também decide o oxigénio

O enchimento não afeta só o volume. O espaço entre o vinho e a rolha é o espaço de cabeça, e é aí que está a maior parte do oxigénio de uma garrafa acabada de fechar. Segundo as auditorias da AWRI, mais de 60% do oxigénio na garrafa está no espaço de cabeça, e esse oxigénio consome SO2 livre nos meses seguintes.

O nível de enchimento é, por isso, uma decisão com dois lados: encher a mais oferece vinho, encher a menos arrisca a média legal e muda o volume de ar na garrafa. Tratamos a parte do oxigénio no artigo sobre oxigénio no engarrafamento.

O que medir numa série

A forma de encher menos a mais sem arriscar a média é conhecer a variação real da enchedora. Para isso, basta pesar ou medir uma amostra de garrafas ao longo da série e registar o resultado.

O que registarPorque importa
Volume ou peso de uma amostra de garrafas, com horaDá a média e a variação reais da série
Temperatura do vinho à entrada da enchedoraO volume que conta é o volume a 20 °C
Lote de vinho e lote de garrafaLiga o resultado ao que foi engarrafado
Garrafas produzidas e volume de vinho consumidoConfirma o excesso médio por outra via
Ajustes feitos à enchedoraExplica mudanças de nível ao longo do tempo

Com a média e a variação medidas, o nível pode ser regulado para a margem que a variação da enchedora exige, e não para uma margem de segurança escolhida às cegas. A diferença entre as duas é vinho que deixa de sair de graça.

Por onde começar

  1. Meça uma série inteira. Pese uma amostra de garrafas no início, a meio e no fim. Vai ter, pela primeira vez, a média e a variação reais.
  2. Compare a média com 750 mL. A diferença é o excesso que está a oferecer em cada garrafa.
  3. Faça a conta anual. Excesso médio vezes garrafas por ano. É o número que justifica ou não mexer na enchedora.
  4. Registe a temperatura do vinho na enchedora. Sem ela, não sabe se a variação vem da máquina ou do vinho.
  5. Confirme pela outra via. Volume de vinho consumido na série dividido pelas garrafas produzidas. Se não bater com a amostra, há perdas na série que não estão a ser contadas.
  6. Repita em cada série. Uma medição isolada é um retrato. Várias séries dizem se a enchedora está estável.

Nada disto exige equipamento novo. Exige registar dados que a linha já produz e ligá-los ao lote.

Perguntas frequentes

Qual é a tolerância de enchimento de uma garrafa de vinho de 75 cL?

Pela Diretiva 76/211/CEE, o erro máximo admissível por defeito para quantidades entre 500 mL e 1000 mL é de 15 mL. A média do lote não pode ficar abaixo dos 750 mL, e nenhuma garrafa com mais de 30 mL a menos pode levar o símbolo ℮.

O que significa o símbolo ℮ nas garrafas?

Indica que a pré-embalagem cumpre os requisitos da Diretiva 76/211/CEE quanto ao conteúdo. Uma garrafa com um erro por defeito superior a duas vezes o erro máximo admissível, ou seja, mais de 30 mL a menos numa garrafa de 75 cL, não pode levar o símbolo.

A temperatura do vinho afeta o volume engarrafado?

Sim. A Diretiva 76/211/CEE determina que, nos produtos medidos em volume, conta o volume a 20 °C, qualquer que seja a temperatura do enchimento. Um vinho engarrafado frio expande-se ao aquecer e um vinho engarrafado quente contrai-se, por isso o nível na linha deve ter em conta a temperatura do vinho.

Quanto vinho se perde por encher garrafas a mais?

Depende do excesso. Com 5 mL a mais por garrafa, 100 000 garrafas levam 500 litros de vinho oferecido, o equivalente a 667 garrafas. A AWRI dá o exemplo extremo de 83 garrafas a menos por cada 1000 litros de vinho quando o enchimento está alto, uma perda de 6% do stock.

Porque é que as enchedoras enchem acima do volume nominal?

Porque a média do lote não pode ficar abaixo do volume nominal e nenhuma enchedora é perfeitamente constante. Encher acima dá margem. A margem necessária depende da variação real da enchedora, e sem medir essa variação a margem tende a ser maior do que precisava.


Se o nível de enchimento da sua linha foi afinado uma vez e nunca mais foi medido, uma conversa de 30 minutos chega para perceber quanto vinho está a sair sem ser faturado. Explicamos como trabalhamos antes de qualquer compromisso.

Fontes

PRÓXIMO PASSO

Esta situação existe na sua adega?

Uma conversa de 30 minutos chega para perceber se este padrão existe na sua adega. Se fizer sentido, marcamos uma visita.

Vista de cima de duas pessoas a conversar, uma com um tablet na mão, no corredor de um armazém industrial