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Engarrafamento: o oxigénio que entra na garrafa e o SO2 que se perde nos meses seguintes

Mais de 60% do oxigénio numa garrafa está no espaço de cabeça. O que é o TPO, que valores são boa prática, e quanto SO2 custa cada mg de oxigénio.

· Por Duarte Barata · 9 min de leitura

O oxigénio total numa garrafa de vinho, o TPO (total package oxygen), é a soma do oxigénio dissolvido no vinho com o oxigénio no espaço de cabeça, medida logo a seguir ao engarrafamento. A AWRI classifica como boa prática um TPO abaixo de 1,5 mg/L e como aceitável entre 1,5 e 2,5 mg/L. Nas suas auditorias, mais de 60% do oxigénio da garrafa estava no espaço de cabeça, não no vinho. E cada mg/L de oxigénio pode, em teoria, consumir 4 mg/L de SO2.

O engarrafamento é o último momento em que a adega pode corrigir alguma coisa. Depois de a rolha entrar, o que está na garrafa fica lá. Um vinho que sai com o SO2 no ponto e com demasiado oxigénio no espaço de cabeça vai perder parte desse SO2 nos meses seguintes, já na prateleira de alguém.

O que é o TPO, e porque não chega medir o oxigénio dissolvido

Muitas adegas medem o oxigénio dissolvido antes de engarrafar. É uma medida útil, mas conta só uma parte. O TPO junta-lhe o oxigénio do espaço de cabeça, o volume de ar que fica entre o vinho e a rolha ou cápsula.

Segundo as auditorias de gestão de oxigénio da AWRI, tipicamente mais de 60% do oxigénio na garrafa está no espaço de cabeça. Uma adega que mede só o dissolvido pode estar a ver menos de metade do problema.

A AWRI dá uma escala para o TPO medido logo após o engarrafamento:

TPOClassificação da AWRI
Abaixo de 1,5 mg/LBoa prática
1,5 a 2,5 mg/LAceitável
Acima de 3 mg/LA melhorar
Acima de 4 mg/LMá prática

O que acontece ao oxigénio depois de a garrafa fechar

O oxigénio do espaço de cabeça e o que fica preso no vedante são, segundo a AWRI, as principais fontes de oxigénio nos primeiros dois a quatro meses depois do engarrafamento. E o efeito mais direto é a perda de SO2 livre no vinho já embalado.

A escala dessa perda sai de uma relação que a AWRI apresenta como teórica: 1 mg/L de oxigénio pode consumir 4 mg/L de SO2. Aplicada à tabela acima, uma garrafa no limite do aceitável, com 2,5 mg/L de TPO, pode consumir até 10 mg/L de SO2. Uma garrafa a 4 mg/L pode consumir até 16 mg/L.

Dez a dezasseis miligramas por litro é uma parte grande do SO2 livre com que muitos vinhos são engarrafados. Quanto dele é necessário depende do pH, como explicamos no artigo sobre SO2 livre e pH. Um vinho que sai da linha no alvo e perde uma fatia assim nos primeiros meses fica abaixo da proteção que a adega julgava ter dado.

É por isso que o TPO e o SO2 livre à saída da linha deviam ser lidos juntos. Um sem o outro não diz se o vinho vai chegar protegido ao consumidor.

As perdas de volume também estão na linha

O engarrafamento não perde só SO2. Perde vinho. Na decomposição de perdas de vinificação publicada por Geoff Cowey, do AWRI, a filtração e o engarrafamento aparecem com perdas entre 0,5 e 5% do volume, com as perdas maiores nas séries pequenas.

A razão é física: o volume que fica nas mangueiras, no filtro e no enchimento no arranque e no fim de cada série é mais ou menos o mesmo quer a série tenha mil garrafas quer tenha vinte mil. Numa série pequena pesa muito mais.

Isto torna o planeamento das séries uma decisão sobre perdas. Uma adega com muitas referências de pequeno volume engarrafa muitas séries curtas, e cada uma paga o seu arranque. Saber quanto cada série perdeu, em litros e em percentagem, é o que permite decidir se vale a pena agrupar lotes, mudar a ordem das séries ou aceitar a perda como custo daquela referência.

A filtração antes do engarrafamento

A AWRI é explícita sobre filtrar antes de engarrafar. Na sua ficha sobre controlo de Brettanomyces, recomenda vivamente filtrar se a turvação de um vinho contiver microrganismos viáveis, e assume a posição de que uma filtração bem feita, do grau adequado, é uma opção muito melhor do que correr o risco de alteração microbiana depois do engarrafamento, mesmo nos tintos, onde alguns enólogos hesitam em filtrar.

A filtração é também uma etapa de perda de volume, a mesma que a decomposição de Cowey junta ao engarrafamento. Registar o volume antes e depois do filtro separa as duas perdas e mostra qual delas está a pesar mais.

O que uma série de engarrafamento devia deixar escrito

O engarrafamento é o momento em que o lote de adega se transforma em lote de garrafa. É também o momento em que a informação do lote mais facilmente se perde, porque passa de uma equipa para outra e de um registo para outro.

CampoPorque importa
Lote de vinho e lote de garrafaLiga o que se sabe do vinho ao que chega ao cliente
Volume antes do filtro, depois do filtro e engarrafadoSepara as perdas de filtração das de enchimento
Número de garrafas e formatoPermite calcular a perda por série e comparar séries
TPO medido, com o ponto da sérieDiz quanto oxigénio entrou e onde
SO2 livre e total à saídaBase para prever o SO2 depois dos primeiros meses
Data e hora de início e fimPermite cruzar com paragens e mudanças de formato

Com isto, cada série responde a perguntas que hoje ficam sem resposta: que séries tiveram mais oxigénio, se o TPO muda do início para o fim, que referências perdem mais vinho, e se o SO2 livre das garrafas do ano passado chegou onde devia.

A mesma ligação entre lote e garrafa é o que a rotulagem eletrónica exige para mostrar os dados certos em cada QR.

Por onde começar

  1. Meça o TPO, não só o oxigénio dissolvido. O espaço de cabeça é normalmente a maior parte. A AWRI disponibiliza uma calculadora de TPO gratuita.
  2. Meça em mais de um ponto da série. No arranque, a meio e no fim. Registe o ponto de cada medição.
  3. Leia o TPO ao lado do SO2 livre. Com a relação de 4 para 1, estime quanto SO2 a garrafa pode perder nos primeiros meses e decida se o SO2 à saída chega.
  4. Registe o volume em três pontos. Antes do filtro, depois do filtro, e engarrafado. As diferenças dizem onde está a perda.
  5. Calcule a perda por série. Em litros e em percentagem. As séries pequenas vão aparecer em cima; a questão é se compensam.
  6. Guarde uma garrafa de cada série e meça o SO2 aos três meses. É a verificação de que a previsão estava certa.

Nada disto exige equipamento novo. Exige organizar dados que a adega já produz para que cada série de engarrafamento fique presa ao lote de onde veio.

Perguntas frequentes

O que é o TPO no vinho?

TPO (total package oxygen) é o oxigénio total numa garrafa de vinho, somando o oxigénio dissolvido no vinho e o oxigénio no espaço de cabeça. A AWRI define-o como a quantidade medida imediatamente a seguir ao engarrafamento.

Qual é um bom valor de TPO no engarrafamento?

Segundo a AWRI, abaixo de 1,5 mg/L é boa prática e entre 1,5 e 2,5 mg/L é aceitável. Acima de 3 mg/L o processo precisa de ser melhorado, e acima de 4 mg/L é considerado má prática.

Onde está a maior parte do oxigénio numa garrafa de vinho?

No espaço de cabeça. As auditorias de gestão de oxigénio da AWRI mostram que tipicamente mais de 60% do oxigénio na garrafa está no espaço de cabeça e não dissolvido no vinho. Medir só o oxigénio dissolvido subestima o total.

Quanto SO2 se perde depois do engarrafamento?

Depende do oxigénio que entrou. Em teoria, 1 mg/L de oxigénio pode consumir 4 mg/L de SO2, pelo que uma garrafa com 2,5 mg/L de TPO pode perder até 10 mg/L de SO2. Segundo a AWRI, o oxigénio do espaço de cabeça e do vedante são as principais fontes nos primeiros dois a quatro meses depois do engarrafamento.

Quanto vinho se perde no engarrafamento?

Entre 0,5 e 5% do volume na filtração e no engarrafamento, segundo a decomposição de perdas publicada pelo AWRI, com as perdas maiores nas séries pequenas, onde o volume perdido no arranque e no fim da série pesa mais.

Deve filtrar-se o vinho antes de engarrafar?

A AWRI recomenda vivamente filtrar se a turvação do vinho contiver microrganismos viáveis, e considera que uma filtração bem feita, do grau adequado, é muito melhor opção do que o risco de alteração microbiana depois do engarrafamento, também nos tintos.


Se as séries de engarrafamento da sua adega não ficam ligadas ao lote, ao oxigénio e ao SO2 com que saíram, uma conversa de 30 minutos chega para perceber por onde começar. Explicamos como trabalhamos antes de qualquer compromisso.

Fontes

PRÓXIMO PASSO

Esta situação existe na sua adega?

Uma conversa de 30 minutos chega para perceber se este padrão existe na sua adega. Se fizer sentido, marcamos uma visita.

Vista de cima de duas pessoas a conversar, uma com um tablet na mão, no corredor de um armazém industrial