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Indústria

A fábrica tem dados a mais e informação a menos: o problema dos vinte Excels

A maioria das fábricas não tem falta de dados: tem dados espalhados por ERP, Excels e papel. O que custa a dispersão e por onde começar a arrumá-la.

· Por Guilherme Silva · 11 min de leitura

A maioria das fábricas não tem falta de dados: tem dados espalhados por ERP, Excels e papel, sem definições comuns nem dono por indicador. O custo é tempo: segundo o McKinsey Global Institute, os trabalhadores do conhecimento gastam 19% da semana a procurar e reunir informação interna, perto de um dia por semana. Em Portugal, só 45,0% das empresas com 10 ou mais pessoas fazem análise de dados, segundo o INE.

A queixa repete-se de fábrica para fábrica: “não temos dados”. Em muitos casos não é bem assim. A fábrica tem dados de sobra. Tem o ERP com as encomendas e os stocks, tem o Excel do planeamento, o Excel da qualidade, o Excel que o chefe de turno mantém porque não confia nos outros dois, tem folhas de registo em papel presas com um íman ao quadro da linha, e tem o email, onde tudo isto circula em anexos com nomes como producao_final_v3_REVISTO.xlsx.

O que falta não são dados. É uma versão única da verdade: um sítio onde cada indicador tem um valor, uma definição e um dono. Sem isso, os dados existem mas não informam, e a empresa paga essa diferença todas as semanas, em horas de gente qualificada e em decisões adiadas.

Este artigo junta os números publicados sobre esse custo e termina com quatro passos para começar a arrumar a casa sem trocar de sistemas.

O mesmo indicador, três valores, vinte minutos perdidos

A cena repete-se em fábricas de setores muito diferentes. A reunião de produção abre com um indicador, digamos, a taxa de rejeição do mês. O responsável da qualidade traz um valor, tirado do ficheiro dele. O diretor de produção traz outro, tirado do relatório que o planeamento monta a partir do ERP. O controller traz um terceiro, porque fecha o mês com critérios de custeio próprios.

Os vinte minutos seguintes não se gastam a decidir o que fazer com o número. Gastam-se a discutir qual dos três números é o certo. E como ninguém consegue provar na hora de onde veio cada valor, a reunião termina sem decisão: alguém fica de “verificar e confirmar”, e o assunto volta na semana seguinte, muitas vezes com um quarto valor.

No fim, a empresa tinha três medições do mesmo fenómeno e saiu da reunião com menos certezas do que se tivesse uma só. Sem definições comuns e sem um dono por indicador, mais dados não deram mais informação: deram mais discussão.

Ninguém decidiu ter vinte Excels; eles acumulam-se

A dispersão não resulta de má gestão. Resulta de decisões razoáveis tomadas uma a uma:

  • O ERP foi comprado para a parte comercial e para os stocks, e nunca cobriu bem o chão de fábrica. Onde o ERP não chega, nasce um Excel.
  • Cada Excel nasce para resolver um problema real de uma pessoa real: o chefe de turno que precisa de registar paragens, a qualidade que precisa de acompanhar reclamações, o comercial que quer ver as encomendas “à maneira dele”.
  • Como os ficheiros não falam entre si, cada um copia dados dos outros. E a partir do momento em que há uma cópia, os valores começam a divergir sem ninguém dar por isso.
  • O email transporta as versões. Ao fim de um ano, ninguém sabe se o ficheiro que tem aberto é o mais recente, e a única forma de saber é perguntar, o que custa mais uma interrupção e mais tempo perdido.

O papel agrava o padrão mas não é a causa. Uma folha de registo em papel bem desenhada, que alguém passa a digital todos os dias para um sítio único, vale mais do que cinco Excels sofisticados que ninguém reconcilia.

Quanto tempo custa: quase um dia por semana, segundo a McKinsey

O número mais sólido sobre este custo vem do McKinsey Global Institute, no relatório “The social economy”, de 2012: os trabalhadores do conhecimento gastam 19% da semana de trabalho a procurar e a reunir informação interna. É praticamente um dia por semana. O mesmo estudo atribui outros 28% da semana à gestão de email, o canal por onde os tais anexos circulam.

O estudo olha para funções de escritório, não para o operador na linha. Mas numa PME industrial as pessoas que procuram e reconciliam informação são exatamente as mais caras e mais difíceis de substituir: o diretor de produção, o responsável de qualidade, o planeador, quem fecha o mês. Se três ou quatro dessas pessoas perdem perto de um dia por semana a caçar valores entre ficheiros, a empresa está a pagar salários qualificados para fazer trabalho de arquivo.

Vale a pena fazer a conta em casa, com os salários reais e uma estimativa honesta das horas. O resultado costuma surpreender: a estimativa de cabeça (“perdemos algum tempo com isso”) tende a ficar aquém do que uma semana de observação mostra.

Circula um número mais dramático, “2,5 horas por dia à procura de informação”, quase sempre atribuído à IDC. Vem de uma estimativa de 2001 que o próprio documento não apresenta como medição; um estudo posterior da IDC, de 2011, mediu 8,8 horas por semana. Perto de um dia por semana chega para justificar agir. Não é preciso inflacionar.

Portugal: menos de metade das empresas analisa os dados que recolhe

Os dados oficiais mostram que o problema é comum. Segundo o inquérito do INE à utilização de tecnologias de informação nas empresas, publicado em 2025, 45,0% das empresas portuguesas com 10 ou mais pessoas ao serviço fazem análise de dados, mais 6,4 pontos percentuais do que em 2023. A tendência é de subida, mas mais de metade continua sem analisar de forma sistemática os dados que recolhe.

A comparação europeia dá contexto. No inquérito equivalente do Eurostat, também de 2025, 39,9% das empresas da UE fazem análise de dados, internamente ou com apoio externo, pelo que Portugal está ligeiramente acima da média. O fosso que interessa a uma PME é outro: na análise feita com pessoal próprio, a percentagem vai de 27,9% nas pequenas empresas a 78,8% nas grandes. A análise de dados é prática corrente nas grandes e exceção nas pequenas, e é nas pequenas que os vinte Excels pesam mais, porque não há um departamento inteiro para os reconciliar.

Uma versão única da verdade não exige trocar de sistemas

A reação instintiva ao problema é comprar um sistema novo, “um que junte tudo”. Quase sempre é um erro começar por aí. Um sistema novo montado sobre definições que continuam por acordar produz o mesmo conflito de números, agora com uma licença anual associada. E a migração consome meses de atenção de quem menos a pode dispensar.

O trabalho que resolve a dispersão é menos vistoso e mais barato:

  • Definições escritas. É preciso fixar o que conta como paragem, como rejeição, como encomenda entregue. Enquanto cada ficheiro usar a sua definição, os números nunca vão bater certo, com ou sem software novo.
  • Um dono por indicador. Uma pessoa responde pelo valor oficial. Os outros podem calcular o que quiserem, mas há um número que vale.
  • Um registo central que se alimenta do que já existe: o ERP, os ficheiros, as folhas de papel passadas a digital. Os Excels não desaparecem no primeiro dia; deixam é de ser a fonte, para passarem a ser vistas sobre a mesma fonte.
  • Um circuito com datas, para se saber que valor foi reportado, quando e a partir de quê. É o que permite, na reunião, responder em segundos à pergunta “de onde vem este número?”.

É este o tipo de trabalho que descrevemos em o que fazemos: organizar os dados que a fábrica já gera, sem hardware novo nem troca de sistemas. Para quem quiser ver o circuito montado, construímos uma demonstração de organização de dados sobre dados representativos: um modelo de base de dados que transforma registos dispersos numa fonte única consultável. É um modelo de referência, não um projeto num cliente.

Por onde começar, sem comprar nada

Quatro passos que qualquer empresa pode dar sozinha, num par de semanas:

  1. Escolha o indicador que gera mais discussões. Não escolha os vinte; comece pelo que mais vezes aparece com valores diferentes em reuniões.
  2. Mapeie onde ele vive. Liste todos os sítios onde esse indicador é registado ou calculado: sistemas, ficheiros, papel, email. O mapa costuma ser mais comprido do que se espera, e esse é o primeiro resultado útil.
  3. Escreva a definição e nomeie o dono. Meia página chega: o que se mede, com que fórmula, a partir de que registo, quem responde por ele. Ponha as pessoas dos três valores na mesma sala até a definição fechar.
  4. Corte as cópias. A partir da definição, uma fonte alimenta tudo o resto. Quem precisar de uma vista própria, constrói-a sobre a fonte, não ao lado dela.

Feito isto para um indicador, o método está testado e o segundo sai mais depressa. E a próxima reunião de produção chega ao assunto vinte minutos mais cedo, porque o número já não está em disputa.

Perguntas frequentes

Precisamos de um ERP novo para acabar com os Excels dispersos?

Quase nunca. O conflito de números vem de definições diferentes e de cópias sem dono, e isso não se resolve com uma migração. Resolve-se acordando definições, nomeando donos e criando um registo central que se alimenta do que já existe, incluindo o ERP atual.

O Excel é o problema?

Não. O Excel é uma excelente ferramenta de análise e uma péssima base de dados partilhada. O problema aparece quando um ficheiro pessoal passa a sistema de registo paralelo, com cópias que vão divergindo umas das outras. Excels como vistas sobre uma fonte única funcionam bem.

Quanto tempo se perde realmente à procura de informação nas empresas?

O número mais sólido é do McKinsey Global Institute (2012): 19% da semana de trabalho a procurar e reunir informação interna, perto de um dia por semana. As “2,5 horas por dia” que circulam em apresentações vêm de uma estimativa da IDC de 2001 que o próprio documento admite não ser uma medição; um estudo posterior da IDC, de 2011, mediu 8,8 horas por semana, perto de 1,8 horas por dia.

O que é uma “versão única da verdade”?

É a prática de cada indicador ter um valor oficial, uma definição escrita, um dono e uma origem rastreável. Não significa um único software; significa que, quando duas pessoas falam da taxa de rejeição de junho, estão a falar do mesmo número calculado da mesma maneira.

A minha empresa é pequena; isto justifica-se?

No inquérito do Eurostat de 2025, 27,9% das pequenas empresas europeias analisam dados com pessoal próprio, contra 78,8% das grandes. É nas pequenas que o custo relativo é maior: não têm uma equipa para reconciliar ficheiros e, por isso mesmo, arrumar a fonte compensa mais depressa.

Por onde começa um trabalho destes com apoio externo?

Pelo diagnóstico, não pela tecnologia: perceber que dados existem, onde vivem e que decisões deviam alimentar. Só depois se toca em ferramentas: a plataforma escolhe-se depois de conhecer a fábrica, não antes.


Se quiser perceber quantas versões da verdade existem hoje na sua fábrica, e o que custaria reduzi-las a uma, uma conversa de 30 minutos chega para avaliar. Explicamos como trabalhamos antes de qualquer compromisso.

Fontes

PRÓXIMO PASSO

Este problema existe na sua fábrica?

Uma conversa de 30 minutos chega para perceber se este padrão existe na sua operação. Se fizer sentido, avançamos para uma visita.

Vista de cima de duas pessoas a conversar, uma com um tablet na mão, no corredor de um armazém industrial

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