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Temperatura de fermentação do vinho: como controlar e o que se perde entre duas leituras

A temperatura de fermentação lê-se poucas vezes ao dia. Entre leituras cabe um desvio de aromas; o registo contínuo apanha-o a tempo.

· Por Duarte Barata · 13 min de leitura

Segundo fontes técnicas da indústria de vinificação, os tintos fermentam tipicamente entre cerca de 21 e 29 °C, para extrair cor e taninos, e os brancos entre cerca de 7 e 16 °C, para preservar os aromas da casta. São janelas estreitas, e a fermentação empurra sempre a temperatura para cima. Com leituras manuais três ou quatro vezes por dia, o desvio acontece entre medições e só se descobre depois.

A fermentação de um vinho decide-se em horas, mas em muitas adegas a temperatura do depósito lê-se à mão três ou quatro vezes por dia. Alguém passa com o termómetro, aponta o valor num caderno ou numa folha, e segue. Entre uma leitura da manhã e a da tarde passam-se cinco, seis horas em que ninguém sabe o que aconteceu lá dentro. E é precisamente nesse intervalo que a temperatura faz o que quer.

O problema não é a competência de quem mede. É a frequência. Uma fermentação em plena atividade liberta calor depressa, e um depósito pode subir vários graus entre duas passagens sem que nada, à vista, denuncie o desvio. Quando a leitura seguinte revela o número, o estrago já começou: os aromas que se perderam, perderam-se; a levedura que arrancou em stress, arrancou. O custo não aparece no termómetro. Aparece no copo, semanas depois, quando já não há como voltar atrás.

A boa notícia é que muitos dos depósitos que precisam deste controlo já têm uma sonda instalada, ligada ao sistema de refrigeração. O que falta, com frequência, não é o sensor. É registar o que o sensor lê, de forma contínua, para que o desvio se veja quando está a acontecer e não no dia seguinte.

As gamas de trabalho são estreitas, e sair delas é fácil

Cada vinho tem uma janela de temperatura em que a fermentação corre como se quer. Segundo fontes técnicas da indústria de vinificação, os tintos fermentam tipicamente entre cerca de 21 e 29 °C, uma gama mais quente que favorece a extração de cor e taninos da película. Os brancos ficam muito mais frios, à volta de 7 a 16 °C, para preservar os aromas voláteis que definem a identidade da casta.

São janelas estreitas. Poucos graus separam o ponto certo do ponto onde as coisas começam a correr mal, e a fermentação, por natureza, empurra sempre a temperatura para cima: a atividade da levedura é exotérmica, liberta calor. Sem refrigeração afinada, o depósito sobe sozinho. Com refrigeração mal doseada, oscila. Em qualquer dos casos, a única forma de saber onde está a temperatura num dado momento é medi-la nesse momento, e é aí que a leitura manual falha, não por erro, mas por espaçamento.

O que se perde entre duas leituras

O intervalo entre duas medições é onde cabem três dos desvios que mais custam numa adega, e nenhum deles avisa a tempo se só se lê o depósito de manhã e à tarde.

O primeiro é a perda de aromas por calor. Acima de cerca de 18 a 20 °C, a evaporação de aromas e sabores voláteis acelera. Num branco, cujos aromas nativos são a própria assinatura da casta, uma subida que passe despercebida durante algumas horas leva embora exatamente o que dava valor ao vinho. Não há defeito visível nem cheiro a alarme: o vinho fica apenas mais pobre do que podia ter sido, e fica por explicar porquê.

O segundo é o arranque de compostos sulfurados. A partir de cerca de 30 °C, a levedura sob stress térmico pode começar a libertar compostos indesejados, entre eles o sulfureto de hidrogénio (H2S), aquele cheiro a ovo podre que ninguém quer no depósito. Perto dos 32 °C aparece o sabor a “cozido”. Um pico de temperatura de meia tarde, corrigido só na leitura da noite, é tempo mais do que suficiente para o H2S começar. Depois trata-se o defeito em vez de o ter evitado.

O terceiro, e talvez o mais caro em trabalho, é a fermentação presa pelo lado do frio. Se a temperatura desce demasiado, a levedura flocula e cai para o fundo, e a fermentação para. Um branco que estanca com apenas um ou dois graus Brix por fermentar pode ser muito difícil de reiniciar. O que devia ter sido uma fermentação limpa passa a um problema de reinício, com pé de cuba novo, tempo perdido e um resultado incerto.

Desvio de temperaturaO que acontece no depósitoO que aparece no copo
Acima de ~18–20 °CEvaporação acelerada de aromas voláteisBranco apagado, sem a fruta da casta
A partir de ~30 °CLevedura em stress liberta H2SCheiro a ovo podre, redução
Perto de ~32 °CSobreaquecimentoSabor a “cozido”
Frio a maisLevedura flocula, fermentação paraVinho por acabar, reinício difícil

Nenhuma destas linhas é uma fatalidade. Todas se podem evitar com o mesmo gesto: ver a temperatura sair da janela enquanto ainda dá para agir, e não depois.

Poucos graus mudam o vinho no copo

Que a temperatura de fermentação altera o vinho não é opinião de adega, é resultado medido. O estudo de Molina e colegas, publicado na Applied Microbiology and Biotechnology em 2007, comparou fermentações a 15 °C e a 28 °C e mediu o perfil de aromas produzido pela levedura em cada uma.

As duas temperaturas dão vinhos diferentes. A 15 °C, a fermentação gera mais compostos frescos e frutados, os ésteres etílicos e o acetato de etilo, com um aumento de cerca de 14% no etil-octanoato e de 24% no etil-butanoato face aos 28 °C. A temperatura mais alta, por seu lado, favorece os compostos de carácter floral. As fermentações frias retêm ainda mais terpenos e reduzem a formação de álcoois superiores. Ou seja: treze graus de diferença não mudam só a velocidade da fermentação, mudam a composição aromática do produto final, e mudam-na de forma mensurável.

O que isto diz a quem faz vinho é simples. A temperatura não é um parâmetro de segurança que basta manter “mais ou menos” dentro de uma gama larga. É uma alavanca de estilo. E uma alavanca só se usa bem se se souber, a cada momento, onde ela está. Um enólogo que decide fermentar um branco fresco a uma temperatura baixa para preservar a fruta está a apostar num perfil concreto; se o depósito derivar dois ou três graus a meio da noite sem que ninguém veja, a aposta muda sem que ele saiba.

A fermentação é onde a adega gasta a energia

Há um segundo argumento, e este está na conta da luz. A fermentação é a fase que mais energia consome numa adega. Segundo uma revisão publicada na ScienceDirect sobre eficiência energética na indústria da vinificação, a fermentação pode representar entre 45% e 90% do consumo energético total da adega, sobretudo por causa da refrigeração necessária para segurar a temperatura.

Quando um número tão grande da fatura depende de segurar a temperatura, medir mal essa temperatura sai caro nos dois sentidos. Refrigera-se a mais, e gasta-se energia que não era precisa. Refrigera-se a menos, e arrisca-se o desvio. A leitura manual, espaçada, obriga a jogar pelo seguro: mantém-se a refrigeração a puxar de mais para garantir que, seja qual for a temperatura entre duas medições, ela nunca sobe demasiado. É um seguro que se paga todos os dias na eletricidade.

Ver a curva de temperatura em vez de pontos soltos permite refrigerar quando é preciso e só quando é preciso. O ganho energético não é o motivo principal para monitorizar, mas pode ser o que paga a monitorização.

A sonda já lá está; o que falta é o registo

A tentação, chegados aqui, é pensar em comprar equipamento. Em muitos casos não é preciso. Os depósitos com controlo de temperatura já têm uma sonda, porque o próprio sistema de refrigeração precisa dela para ligar e desligar as camisas. Essa sonda está a ler a temperatura ao segundo. O que raramente existe é o hábito, ou o meio, de guardar essas leituras ao longo do tempo, num sítio onde se possam ver e comparar.

É essa a diferença entre controlar e monitorizar. Controlar é o que a refrigeração já faz: mantém o depósito numa temperatura-alvo. Monitorizar é registar o que se passou, minuto a minuto, para que uma subida anormal a meio da noite deixe rasto, dispare um aviso, e apareça numa curva que o enólogo lê de manhã em dez segundos em vez de reconstituir de cabeça a partir de quatro números soltos.

O princípio é aproveitar o que a adega já produz e não guarda: a sonda que já existe e o valor que já é lido, acrescentando o registo que faltava. Foi assim num modelo de monitorização que construímos para o têxtil sobre dados representativos, em que os sensores já existiam mas os sinais viviam dispersos e só se cruzavam quando o turno tinha acabado. A mesma lógica aplica-se à adega, sem exigir hardware novo, trocar o sistema de frio nem fazer obra. O sensor lê; o que muda é que passa a haver registo, e o registo transforma um valor instantâneo numa curva que se pode ler, comparar e usar.

Vale a pena notar o contraste que atravessa isto tudo. Pergunte a um responsável de adega a que temperatura fermentou o lote da semana passada e a resposta costuma ser uma estimativa: “andámos à volta dos 16”. A curva registada diz outra coisa: que houve duas horas aos 19 na terça à noite. As duas frases descrevem o mesmo lote. Só uma delas explica por que é que o vinho ficou como ficou.

Por onde começar

Antes de falar com fornecedores ou com quem quer que seja, uma adega pode dar sozinha estes passos e perceber já onde está.

  1. Faça o inventário das sondas que já tem. Percorra os depósitos com controlo de temperatura e confirme quantos têm sonda e onde está o valor que ela lê. Com frequência, a leitura existe e morre no controlador, sem ficar guardada.
  2. Fixe a janela de cada tipo de vinho. Fixe por escrito a gama-alvo de cada fermentação: os brancos numa banda baixa, os tintos numa banda mais quente, com o limite de cima a que o depósito nunca deve chegar. Sem alvo definido, não há desvio a detetar.
  3. Comece a registar, nem que seja num lote. Escolha um depósito e passe a guardar a temperatura ao longo da fermentação inteira, não só nas passagens do dia. Ao fim de uma fermentação já tem uma curva, e a curva revela os buracos que a folha de leituras escondia.
  4. Compare a curva com a memória. Ponha ao lado o que registou e o que teria apontado à mão. A distância entre os dois é a medida exata do que se perdia entre duas leituras.
  5. Defina um limiar de aviso. Decida a que temperatura quer ser avisado, e por quem, antes de o depósito passar da linha. O objetivo não é ter mais dados, é agir a horas.

Nenhum destes passos custa equipamento. Custam atenção e um método, e chegam para perceber se o problema existe na sua adega antes de investir seja no que for.

Perguntas frequentes

A que temperatura se deve fermentar vinho tinto e branco?

Segundo fontes técnicas da indústria, os tintos fermentam tipicamente entre cerca de 21 e 29 °C, para extrair cor e taninos, e os brancos entre cerca de 7 e 16 °C, para preservar os aromas voláteis. São gamas de referência: o alvo exato depende da casta e do estilo pretendido, e é decisão do enólogo dentro dessas bandas.

Porque é que a temperatura sobe sozinha durante a fermentação?

Porque a fermentação é exotérmica: a levedura, ao transformar o açúcar, liberta calor. Sem refrigeração o depósito aquece por si, e quanto mais ativa está a fermentação, mais depressa sobe. É por isso que segurar a temperatura consome tanta energia numa adega.

O que é uma fermentação presa e como está ligada à temperatura?

É uma fermentação que pára antes de o açúcar acabar. Uma das causas é o frio a mais: se a temperatura desce demasiado, a levedura flocula e cai, e a atividade para. Um branco que estanca com um ou dois graus Brix por fermentar pode ser muito difícil de reiniciar, o que obriga a retrabalho.

Preciso de comprar sensores novos para monitorizar a fermentação?

Em muitos casos, não. Os depósitos com controlo de temperatura já têm sonda instalada para o sistema de refrigeração funcionar. O que costuma faltar não é o sensor, é o registo contínuo do que ele lê, para que os desvios fiquem visíveis enquanto ainda dá para corrigir.

Poucos graus de diferença na fermentação alteram mesmo o vinho?

Sim, e está medido. O estudo de Molina e colegas (2007) comparou fermentações a 15 °C e a 28 °C e verificou perfis aromáticos diferentes: a temperatura mais baixa produziu mais ésteres frutados, com aumentos de 14% e 24% em dois deles, enquanto a mais alta favoreceu notas florais. A temperatura de fermentação é uma alavanca de estilo, não só de segurança.


Se quiser perceber o que as sondas que a sua adega já tem instaladas permitem fazer, uma conversa de 30 minutos chega para avaliar. Explicamos como trabalhamos antes de qualquer compromisso, e sem obrigar a comprar nada.

Fontes

PRÓXIMO PASSO

Esta situação existe na sua adega?

Uma conversa de 30 minutos chega para perceber se este padrão existe na sua adega. Se fizer sentido, marcamos uma visita.

Vista de cima de duas pessoas a conversar, uma com um tablet na mão, no corredor de um armazém industrial