Eficiência acima de 100% na confeção: o erro costuma estar no tempo-padrão
Uma costureira a 130% ou 140% durante meses quase nunca é mérito: é um tempo-padrão largo. Como se calcula a eficiência e o que um tempo errado estraga.
Uma costureira que aparece a 130% ou 140% de eficiência, mês após mês, raramente é uma costureira extraordinária. Quase sempre é um tempo-padrão errado. A eficiência compara o que a pessoa produziu com o tempo que a operação devia levar, e 100% corresponde ao ritmo normal de uma trabalhadora qualificada, com as tolerâncias já incluídas. Quando uma linha inteira vive acima disso, o que está largo é o tempo, não o ritmo.
Não é um pormenor de métodos e tempos. Na confeção de vestuário portuguesa, segundo o Eurostat, cada hora trabalhada gerou 12,29 euros de valor acrescentado em 2024, metade dos 24,11 euros da indústria transformadora no seu todo, e os custos com pessoal absorveram 65% desse valor acrescentado. Numa atividade onde o produto é, no fundo, minutos de costura, um minuto mal medido é margem mal calculada.
O que é o tempo-padrão
O tempo-padrão é o tempo em que uma operação deve ser feita por uma trabalhadora qualificada, ao ritmo normal, com o método definido. É a definição do manual de estudo do trabalho da Organização Internacional do Trabalho (OIT), a referência clássica da área, e é o número que nas confeções se chama minutos standard, SAM ou SMV, e que muitas medem em centésimos de minuto.
Constrói-se em três passos:
- Tempo observado: cronometra-se a operação várias vezes.
- Tempo base: corrige-se o tempo observado pelo ritmo de quem foi cronometrada. Na escala da OIT, 100 é o ritmo normal; uma costureira observada a 90 dá um tempo base 10% abaixo do que cronometrou.
- Tolerâncias: somam-se percentagens para necessidades pessoais, fadiga e imprevistos. A OIT indica que muitas empresas usam 5 a 7% para necessidades pessoais, 4% de fadiga base para trabalho sentado e leve, e no máximo 5% para imprevistos. Num estudo publicado na revista Heliyon em 2023, sobre uma confeção de pólos na Etiópia, as tolerâncias totais foram de 28,5% para as operações em máquina de ponto corrido e 28% nas corta-e-cose.
O mesmo manual deixa um aviso que vale a pena ler duas vezes: as tolerâncias não devem ser usadas como fatores para “alargar” os tempos.
Como se calcula a eficiência de uma costureira
A eficiência de uma costureira é o tempo-padrão do que produziu, a dividir pelo tempo em que esteve presente:
Eficiência = (peças × tempo-padrão da operação) ÷ minutos presentes × 100
Um exemplo com números redondos. Pregar um bolso tem um tempo-padrão de 0,80 minutos. Uma costureira está oito horas na linha, 480 minutos, e prega 600 bolsos. A conta dá 600 × 0,80 ÷ 480 = 100%: trabalhou exatamente ao ritmo que o tempo-padrão prevê.
Se no mesmo dia pregar 830 bolsos, a conta dá 138%. Há duas explicações possíveis. Ou trabalhou quase 40% acima do ritmo normal de uma costureira qualificada durante o dia inteiro, ou pregar aquele bolso não leva 0,80 minutos.
A eficiência da linha calcula-se da mesma forma, com o tempo-padrão da peça completa e a soma dos minutos de todas as pessoas da linha. É aí que os números reais aparecem. Num estudo da Universidade de Warwick sobre confeções no Bangladesh, a eficiência média das linhas da amostra foi de 53%, acima dos 38 a 40% que o próprio setor costuma citar.
Porque é que 139% quase nunca é mérito
Uma costureira muito boa pode passar os 100% de forma legítima. Prasanta Sarkar, autor do blogue de métodos e tempos Online Clothing Study, mostra como uma operadora experiente chega aos 125% num tempo bem feito: para menos vezes do que o previsto, gasta menos das tolerâncias, cose a uma velocidade mais alta. Algumas das outras razões que dá, como coser com menos pontos por centímetro ou costuras mais curtas, já são desvios ao método, e dizem mais sobre a qualidade do que sobre o ritmo. Casos pontuais acima de 100% não são, portanto, sinal de erro no tempo.
O sinal de erro é outro: muitas pessoas, muitas operações, durante muito tempo. A Cronometras, fornecedora de software de cronometragem e por isso parte interessada, escreve que manter eficiências consistentemente acima de 120 a 130% do ritmo normal, sem uma mudança tecnológica que o explique, costuma indicar um erro na avaliação de ritmo original. Os caminhos para lá chegar são conhecidos:
- Cronometrou-se a pessoa errada. A OIT avisa que cronometrar trabalhadoras lentas ou pouco treinadas dá tempos largos, e cronometrar as excecionalmente rápidas dá tempos apertados.
- O método mudou e o tempo ficou. Um molde novo, um aparelho na máquina, uma sequência simplificada. A operação passou a levar menos tempo, mas ninguém recronometrou. A Cronometras chama-lhe “deriva de método”: pequenas mudanças não documentadas que se acumulam.
- O tempo foi alargado de propósito. O estudo de Warwick nota que as fábricas ajustam muitas vezes para cima os tempos internacionais das operações, para contar com alguma ineficiência esperada. É uma prática compreensível, mas a partir daí a eficiência deixa de medir o que diz medir.
- O prémio protege o tempo. Quando há prémio de produção, um tempo largo passa a ser de quem ganha com ele. A literatura económica sobre trabalho à peça descreve o chamado efeito de roquete: se as trabalhadoras sabem que produzir muito leva a apertar o tempo, têm razões para não produzir tanto quanto podiam.
O que um tempo errado estraga
O tempo-padrão não serve só para calcular eficiências. Serve para quase tudo o que a confeção decide, e um tempo errado estraga tudo o que depende dele.
| Decisão | Tempo largo (acima do real) | Tempo apertado (abaixo do real) |
|---|---|---|
| Orçamento do feitio | Preço acima do necessário, encomendas perdidas | Preço abaixo do custo, minutos oferecidos ao cliente |
| Planeamento e prazos | Capacidade escondida, linha que parece cheia | Prazos falhados, horas extra |
| Balanceamento da linha | O gargalo real fica escondido atrás de um tempo inflacionado | Pessoas a mais numa operação que não precisa |
| Prémios | Pagos sobre eficiências que não são reais | Desmotivação: ninguém chega ao objetivo |
O lado apertado também existe, e tem um exemplo português bem documentado. Numa dissertação de mestrado da Universidade do Minho, de 2023, feita numa empresa de vestuário do Norte, a confeção de uns calções foi orçamentada com 40 minutos de mão de obra por peça. Medido operação a operação, o tempo de valor acrescentado foi de 54,83 minutos. Mesmo depois de o orçamento ser revisto para 50 minutos, a diferença, numa ordem de 232 calções, equivalia a 2,4 dias de trabalho que não entraram no custo cobrado ao cliente. O ponto de partida do problema, segundo o mesmo trabalho: não existiam tempos-padrão para cada operação.
O balanceamento só é tão bom quanto os tempos
Balancear uma linha é distribuir as operações pelas pessoas de forma a que nenhuma fique à espera de outra. A conta de partida é simples: o tempo-padrão da peça a dividir pelo número de pessoas dá o tempo que cada posto deve ocupar. O posto que fica acima desse valor é o gargalo, e é ele que marca o ritmo da linha inteira.
Os ganhos de um bom balanceamento são grandes. No estudo da Heliyon sobre a confeção etíope, a simulação da linha de pólos, construída com os tempos medidos na linha, mostrava 68 minutos de espera antes de pregar a gola ao corpo e 137 minutos antes da costura lateral: eram os gargalos. Redistribuir as operações fez subir, no modelo, a eficiência da linha de 39,06% para 55,64% e a produção diária de cerca de 290 para 381 pólos.
Mas todo o balanceamento assenta nos tempos-padrão. Se o tempo de uma operação está inflacionado, a folha de balanceamento põe lá mais gente do que a operação precisa e esconde o gargalo verdadeiro noutro sítio. A linha fica equilibrada no papel e desequilibrada no chão.
Os primeiros dias de um modelo novo não contam
Há uma razão legítima para a eficiência andar longe do tempo-padrão: a curva de aprendizagem. A OIT descreve o padrão: quando uma operação é nova, a trabalhadora ganha velocidade muito depressa ao início, e o ritmo de melhoria abranda a seguir. Sarkar, do Online Clothing Study, aponta que uma linha atinge o pico de produtividade por volta do sexto ou sétimo dia depois de entrar uma encomenda nova.
Numa confeção que muda de modelo muitas vezes, isto tem uma consequência prática: a eficiência dos dias de arranque deve ser vista à parte. Misturada com a das semanas estáveis, esconde duas coisas diferentes. Uma é quanto custa cada mudança de modelo. A outra é se os tempos estão certos.
Por onde começar
Cinco passos que uma confeção pode dar com os dados que já tem:
- Liste as operações com eficiência acima de 120% durante mais de um mês. Não as costureiras, as operações. Se a mesma operação aparece alta com pessoas diferentes, o problema está no tempo.
- Recronometre essas operações com o método de hoje. Três ou quatro costureiras qualificadas, avaliação de ritmo, tolerâncias explícitas e iguais para todas as operações do mesmo tipo.
- Separe os dias de arranque de modelo. Calcule a eficiência dos primeiros cinco a sete dias de cada encomenda à parte da eficiência estável.
- Olhe para a eficiência da linha, não só para a individual. Uma linha com várias costureiras a 130% e a eficiência total a 60% tem um tempo largo ou um gargalo escondido, e às vezes as duas coisas.
- Compare, por encomenda, o tempo orçamentado com o tempo real. É esta comparação que diz se o preço do feitio está certo. É também a que menos confeções fazem.
Em muitas confeções, os dados para isto já existem: peças por operação registadas em terminais ou em papel, presenças no relógio de ponto, tempos na folha de balanceamento. O que costuma faltar é alguém que os junte todas as semanas e diga que tempos estão errados. É o mesmo raciocínio de como medir a produtividade numa fábrica e de o OEE real numa tecelagem: o número que se estima quase nunca é o que se mede. E é aqui que se decide boa parte da produtividade da indústria portuguesa.
Perguntas frequentes
O que é o tempo-padrão numa confeção?
O tempo-padrão, também chamado minuto standard, SAM ou SMV, é o tempo em que uma costureira qualificada deve fazer uma operação ao ritmo normal, com o método definido. Calcula-se a partir do tempo cronometrado, corrigido pelo ritmo observado, a que se somam tolerâncias para necessidades pessoais, fadiga e imprevistos. É a base da eficiência, do planeamento, do balanceamento e do preço do feitio.
Como se calcula a eficiência de uma costureira?
A eficiência de uma costureira é igual ao número de peças que fez multiplicado pelo tempo-padrão da operação, a dividir pelos minutos em que esteve presente, vezes 100. Uma costureira que em 480 minutos faz 600 peças de uma operação com 0,80 minutos de tempo-padrão está a 100%. A eficiência da linha calcula-se da mesma forma, com o tempo da peça completa e os minutos de todas as pessoas da linha.
É possível uma costureira ter mais de 100% de eficiência?
É possível, e numa costureira experiente é normal ver valores pontuais entre 100 e 125% num tempo bem feito. O que não é normal é uma linha inteira, ou a mesma operação com costureiras diferentes, manter 130 a 140% durante meses. Nesse caso, o mais provável é o tempo-padrão estar largo: foi cronometrado com o método antigo, com a pessoa errada, ou alargado de propósito.
Qual é uma eficiência normal numa linha de costura?
Depende muito do produto, do tamanho das séries e da forma como os tempos foram feitos, por isso comparar entre fábricas é arriscado. Como ordem de grandeza, um estudo da Universidade de Warwick sobre confeções no Bangladesh encontrou uma eficiência média de 53%, e o setor cita valores de 38 a 40%. Mais útil do que comparar com outras fábricas é ter tempos certos e acompanhar a própria eficiência, sempre com o mesmo método.
O que é o balanceamento de uma linha de costura?
Balancear uma linha é distribuir as operações de uma peça pelas costureiras de forma a que todos os postos tenham uma carga parecida e ninguém fique à espera. O posto mais carregado é o gargalo e define a produção da linha inteira. Num estudo publicado na Heliyon em 2023, um novo balanceamento fez subir a eficiência de uma linha de 39% para 56% num modelo de simulação.
Quantos dias demora uma linha a atingir a eficiência normal num modelo novo?
Não há um número universal. Prasanta Sarkar, do blogue Online Clothing Study, aponta que uma linha atinge o pico de produtividade por volta do sexto ou sétimo dia depois de entrar uma encomenda nova. Por isso, a eficiência dos primeiros dias de cada modelo deve ser acompanhada à parte, para não esconder o custo das mudanças nem os erros nos tempos.
Se quiser saber que tempos da sua confeção estão certos e quanto vale cada mudança de modelo, uma conversa de 30 minutos chega para perceber que dados já tem e o que falta para os pôr a trabalhar.
Fontes
- Annual enterprise statistics by size class and NACE Rev. 2 activity (sbs_ovw_act) · Eurostat, dados de 2024 para Portugal, CAE 14 e indústria transformadora, consultado em setembro de 2026.
- Introduction to Work Study, 4.ª edição · George Kanawaty (ed.), Organização Internacional do Trabalho, 1992.
- Productivity improvement through assembly line balancing by using simulation modeling in case of Abay garment industry Gondar · Heliyon, 2023.
- Challenges of Change: An Experiment Training Women to Manage in the Bangladeshi Garment Sector · Macchiavello, Menzel, Rabbani e Woodruff, Universidade de Warwick, 2015.
- Standard Time Audit: How to Detect and Correct Obsolescence in Production Master Data · Cronometras (fornecedor de software de cronometragem), 2026.
- Can an Operator Hit 100% Efficiency? · Prasanta Sarkar, Online Clothing Study, 2019.
- How to Calculate Operator Efficiency? · Prasanta Sarkar, Online Clothing Study.
- 20 Ways to Improve Productivity in Garment Production · Prasanta Sarkar, Online Clothing Study.
- Piece-Rate Incentive Schemes · Robert Gibbons, Journal of Labor Economics, 1987.
- Aplicação de princípios Lean Thinking para melhoria dos processos numa empresa de produção de vestuário · Sara Veloso Rodrigues, dissertação de mestrado, Universidade do Minho, 2023.