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Eficiência acima de 100% na confeção: o erro costuma estar no tempo-padrão

Uma costureira a 130% ou 140% durante meses quase nunca é mérito: é um tempo-padrão largo. Como se calcula a eficiência e o que um tempo errado estraga.

· Por Maria Carvalho · 13 min de leitura

Uma costureira que aparece a 130% ou 140% de eficiência, mês após mês, raramente é uma costureira extraordinária. Quase sempre é um tempo-padrão errado. A eficiência compara o que a pessoa produziu com o tempo que a operação devia levar, e 100% corresponde ao ritmo normal de uma trabalhadora qualificada, com as tolerâncias já incluídas. Quando uma linha inteira vive acima disso, o que está largo é o tempo, não o ritmo.

Não é um pormenor de métodos e tempos. Na confeção de vestuário portuguesa, segundo o Eurostat, cada hora trabalhada gerou 12,29 euros de valor acrescentado em 2024, metade dos 24,11 euros da indústria transformadora no seu todo, e os custos com pessoal absorveram 65% desse valor acrescentado. Numa atividade onde o produto é, no fundo, minutos de costura, um minuto mal medido é margem mal calculada.

O que é o tempo-padrão

O tempo-padrão é o tempo em que uma operação deve ser feita por uma trabalhadora qualificada, ao ritmo normal, com o método definido. É a definição do manual de estudo do trabalho da Organização Internacional do Trabalho (OIT), a referência clássica da área, e é o número que nas confeções se chama minutos standard, SAM ou SMV, e que muitas medem em centésimos de minuto.

Constrói-se em três passos:

  1. Tempo observado: cronometra-se a operação várias vezes.
  2. Tempo base: corrige-se o tempo observado pelo ritmo de quem foi cronometrada. Na escala da OIT, 100 é o ritmo normal; uma costureira observada a 90 dá um tempo base 10% abaixo do que cronometrou.
  3. Tolerâncias: somam-se percentagens para necessidades pessoais, fadiga e imprevistos. A OIT indica que muitas empresas usam 5 a 7% para necessidades pessoais, 4% de fadiga base para trabalho sentado e leve, e no máximo 5% para imprevistos. Num estudo publicado na revista Heliyon em 2023, sobre uma confeção de pólos na Etiópia, as tolerâncias totais foram de 28,5% para as operações em máquina de ponto corrido e 28% nas corta-e-cose.

O mesmo manual deixa um aviso que vale a pena ler duas vezes: as tolerâncias não devem ser usadas como fatores para “alargar” os tempos.

Como se calcula a eficiência de uma costureira

A eficiência de uma costureira é o tempo-padrão do que produziu, a dividir pelo tempo em que esteve presente:

Eficiência = (peças × tempo-padrão da operação) ÷ minutos presentes × 100

Um exemplo com números redondos. Pregar um bolso tem um tempo-padrão de 0,80 minutos. Uma costureira está oito horas na linha, 480 minutos, e prega 600 bolsos. A conta dá 600 × 0,80 ÷ 480 = 100%: trabalhou exatamente ao ritmo que o tempo-padrão prevê.

Se no mesmo dia pregar 830 bolsos, a conta dá 138%. Há duas explicações possíveis. Ou trabalhou quase 40% acima do ritmo normal de uma costureira qualificada durante o dia inteiro, ou pregar aquele bolso não leva 0,80 minutos.

A eficiência da linha calcula-se da mesma forma, com o tempo-padrão da peça completa e a soma dos minutos de todas as pessoas da linha. É aí que os números reais aparecem. Num estudo da Universidade de Warwick sobre confeções no Bangladesh, a eficiência média das linhas da amostra foi de 53%, acima dos 38 a 40% que o próprio setor costuma citar.

Porque é que 139% quase nunca é mérito

Uma costureira muito boa pode passar os 100% de forma legítima. Prasanta Sarkar, autor do blogue de métodos e tempos Online Clothing Study, mostra como uma operadora experiente chega aos 125% num tempo bem feito: para menos vezes do que o previsto, gasta menos das tolerâncias, cose a uma velocidade mais alta. Algumas das outras razões que dá, como coser com menos pontos por centímetro ou costuras mais curtas, já são desvios ao método, e dizem mais sobre a qualidade do que sobre o ritmo. Casos pontuais acima de 100% não são, portanto, sinal de erro no tempo.

O sinal de erro é outro: muitas pessoas, muitas operações, durante muito tempo. A Cronometras, fornecedora de software de cronometragem e por isso parte interessada, escreve que manter eficiências consistentemente acima de 120 a 130% do ritmo normal, sem uma mudança tecnológica que o explique, costuma indicar um erro na avaliação de ritmo original. Os caminhos para lá chegar são conhecidos:

  • Cronometrou-se a pessoa errada. A OIT avisa que cronometrar trabalhadoras lentas ou pouco treinadas dá tempos largos, e cronometrar as excecionalmente rápidas dá tempos apertados.
  • O método mudou e o tempo ficou. Um molde novo, um aparelho na máquina, uma sequência simplificada. A operação passou a levar menos tempo, mas ninguém recronometrou. A Cronometras chama-lhe “deriva de método”: pequenas mudanças não documentadas que se acumulam.
  • O tempo foi alargado de propósito. O estudo de Warwick nota que as fábricas ajustam muitas vezes para cima os tempos internacionais das operações, para contar com alguma ineficiência esperada. É uma prática compreensível, mas a partir daí a eficiência deixa de medir o que diz medir.
  • O prémio protege o tempo. Quando há prémio de produção, um tempo largo passa a ser de quem ganha com ele. A literatura económica sobre trabalho à peça descreve o chamado efeito de roquete: se as trabalhadoras sabem que produzir muito leva a apertar o tempo, têm razões para não produzir tanto quanto podiam.

O que um tempo errado estraga

O tempo-padrão não serve só para calcular eficiências. Serve para quase tudo o que a confeção decide, e um tempo errado estraga tudo o que depende dele.

DecisãoTempo largo (acima do real)Tempo apertado (abaixo do real)
Orçamento do feitioPreço acima do necessário, encomendas perdidasPreço abaixo do custo, minutos oferecidos ao cliente
Planeamento e prazosCapacidade escondida, linha que parece cheiaPrazos falhados, horas extra
Balanceamento da linhaO gargalo real fica escondido atrás de um tempo inflacionadoPessoas a mais numa operação que não precisa
PrémiosPagos sobre eficiências que não são reaisDesmotivação: ninguém chega ao objetivo

O lado apertado também existe, e tem um exemplo português bem documentado. Numa dissertação de mestrado da Universidade do Minho, de 2023, feita numa empresa de vestuário do Norte, a confeção de uns calções foi orçamentada com 40 minutos de mão de obra por peça. Medido operação a operação, o tempo de valor acrescentado foi de 54,83 minutos. Mesmo depois de o orçamento ser revisto para 50 minutos, a diferença, numa ordem de 232 calções, equivalia a 2,4 dias de trabalho que não entraram no custo cobrado ao cliente. O ponto de partida do problema, segundo o mesmo trabalho: não existiam tempos-padrão para cada operação.

O balanceamento só é tão bom quanto os tempos

Balancear uma linha é distribuir as operações pelas pessoas de forma a que nenhuma fique à espera de outra. A conta de partida é simples: o tempo-padrão da peça a dividir pelo número de pessoas dá o tempo que cada posto deve ocupar. O posto que fica acima desse valor é o gargalo, e é ele que marca o ritmo da linha inteira.

Os ganhos de um bom balanceamento são grandes. No estudo da Heliyon sobre a confeção etíope, a simulação da linha de pólos, construída com os tempos medidos na linha, mostrava 68 minutos de espera antes de pregar a gola ao corpo e 137 minutos antes da costura lateral: eram os gargalos. Redistribuir as operações fez subir, no modelo, a eficiência da linha de 39,06% para 55,64% e a produção diária de cerca de 290 para 381 pólos.

Mas todo o balanceamento assenta nos tempos-padrão. Se o tempo de uma operação está inflacionado, a folha de balanceamento põe lá mais gente do que a operação precisa e esconde o gargalo verdadeiro noutro sítio. A linha fica equilibrada no papel e desequilibrada no chão.

Os primeiros dias de um modelo novo não contam

Há uma razão legítima para a eficiência andar longe do tempo-padrão: a curva de aprendizagem. A OIT descreve o padrão: quando uma operação é nova, a trabalhadora ganha velocidade muito depressa ao início, e o ritmo de melhoria abranda a seguir. Sarkar, do Online Clothing Study, aponta que uma linha atinge o pico de produtividade por volta do sexto ou sétimo dia depois de entrar uma encomenda nova.

Numa confeção que muda de modelo muitas vezes, isto tem uma consequência prática: a eficiência dos dias de arranque deve ser vista à parte. Misturada com a das semanas estáveis, esconde duas coisas diferentes. Uma é quanto custa cada mudança de modelo. A outra é se os tempos estão certos.

Por onde começar

Cinco passos que uma confeção pode dar com os dados que já tem:

  1. Liste as operações com eficiência acima de 120% durante mais de um mês. Não as costureiras, as operações. Se a mesma operação aparece alta com pessoas diferentes, o problema está no tempo.
  2. Recronometre essas operações com o método de hoje. Três ou quatro costureiras qualificadas, avaliação de ritmo, tolerâncias explícitas e iguais para todas as operações do mesmo tipo.
  3. Separe os dias de arranque de modelo. Calcule a eficiência dos primeiros cinco a sete dias de cada encomenda à parte da eficiência estável.
  4. Olhe para a eficiência da linha, não só para a individual. Uma linha com várias costureiras a 130% e a eficiência total a 60% tem um tempo largo ou um gargalo escondido, e às vezes as duas coisas.
  5. Compare, por encomenda, o tempo orçamentado com o tempo real. É esta comparação que diz se o preço do feitio está certo. É também a que menos confeções fazem.

Em muitas confeções, os dados para isto já existem: peças por operação registadas em terminais ou em papel, presenças no relógio de ponto, tempos na folha de balanceamento. O que costuma faltar é alguém que os junte todas as semanas e diga que tempos estão errados. É o mesmo raciocínio de como medir a produtividade numa fábrica e de o OEE real numa tecelagem: o número que se estima quase nunca é o que se mede. E é aqui que se decide boa parte da produtividade da indústria portuguesa.

Perguntas frequentes

O que é o tempo-padrão numa confeção?

O tempo-padrão, também chamado minuto standard, SAM ou SMV, é o tempo em que uma costureira qualificada deve fazer uma operação ao ritmo normal, com o método definido. Calcula-se a partir do tempo cronometrado, corrigido pelo ritmo observado, a que se somam tolerâncias para necessidades pessoais, fadiga e imprevistos. É a base da eficiência, do planeamento, do balanceamento e do preço do feitio.

Como se calcula a eficiência de uma costureira?

A eficiência de uma costureira é igual ao número de peças que fez multiplicado pelo tempo-padrão da operação, a dividir pelos minutos em que esteve presente, vezes 100. Uma costureira que em 480 minutos faz 600 peças de uma operação com 0,80 minutos de tempo-padrão está a 100%. A eficiência da linha calcula-se da mesma forma, com o tempo da peça completa e os minutos de todas as pessoas da linha.

É possível uma costureira ter mais de 100% de eficiência?

É possível, e numa costureira experiente é normal ver valores pontuais entre 100 e 125% num tempo bem feito. O que não é normal é uma linha inteira, ou a mesma operação com costureiras diferentes, manter 130 a 140% durante meses. Nesse caso, o mais provável é o tempo-padrão estar largo: foi cronometrado com o método antigo, com a pessoa errada, ou alargado de propósito.

Qual é uma eficiência normal numa linha de costura?

Depende muito do produto, do tamanho das séries e da forma como os tempos foram feitos, por isso comparar entre fábricas é arriscado. Como ordem de grandeza, um estudo da Universidade de Warwick sobre confeções no Bangladesh encontrou uma eficiência média de 53%, e o setor cita valores de 38 a 40%. Mais útil do que comparar com outras fábricas é ter tempos certos e acompanhar a própria eficiência, sempre com o mesmo método.

O que é o balanceamento de uma linha de costura?

Balancear uma linha é distribuir as operações de uma peça pelas costureiras de forma a que todos os postos tenham uma carga parecida e ninguém fique à espera. O posto mais carregado é o gargalo e define a produção da linha inteira. Num estudo publicado na Heliyon em 2023, um novo balanceamento fez subir a eficiência de uma linha de 39% para 56% num modelo de simulação.

Quantos dias demora uma linha a atingir a eficiência normal num modelo novo?

Não há um número universal. Prasanta Sarkar, do blogue Online Clothing Study, aponta que uma linha atinge o pico de produtividade por volta do sexto ou sétimo dia depois de entrar uma encomenda nova. Por isso, a eficiência dos primeiros dias de cada modelo deve ser acompanhada à parte, para não esconder o custo das mudanças nem os erros nos tempos.


Se quiser saber que tempos da sua confeção estão certos e quanto vale cada mudança de modelo, uma conversa de 30 minutos chega para perceber que dados já tem e o que falta para os pôr a trabalhar.

Fontes

PRÓXIMO PASSO

Este problema existe na sua fábrica?

Uma conversa de 30 minutos chega para perceber se este padrão existe na sua operação. Se fizer sentido, avançamos para uma visita.

Vista de cima de duas pessoas a conversar, uma com um tablet na mão, no corredor de um armazém industrial

Diga-nos o que se passa na sua fábrica.