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Construção

Retrabalho na construção: a percentagem da obra que ninguém orçamenta

Refazer trabalho consome 10 a 25% do custo de obra e quase metade nasce de má informação. O que dizem os estudos e por onde começar a medir.

maio de 2026 · 14 min de leitura

Nenhum orçamento de obra tem uma linha que diga “refazer o que já estava feito”. E no entanto essa linha invisível é, segundo a investigação do setor, uma das maiores rubricas da obra: a Get It Right Initiative (GIRI), uma iniciativa da indústria de construção do Reino Unido, concluiu em 2016 que o erro evitável consome entre 10% e 25% do custo de projeto. Não é aço nem mão-de-obra a mais: é trabalho que já tinha sido pago uma vez e teve de ser pago outra.

Quem anda em obra reconhece o fenómeno, mas quase nunca o vê somado. São episódios conhecidos: a parede que se abre porque a especialidade passou onde não devia, a betonagem que se corrige porque o desenho em obra era a versão anterior, o revestimento que se arranca porque a alteração do cliente ficou num email que não chegou ao encarregado. Cada episódio parece pequeno e pontual. A soma não é nem uma coisa nem outra.

E há um segundo número que muda a natureza do problema. Um estudo da consultora FMI com a PlanGrid, feito nos Estados Unidos em 2018, estimou que 48% do retrabalho tem origem em dados deficientes e má comunicação. Quase metade do trabalho refeito não nasce de má execução. Nasce de informação errada, desatualizada ou que não chegou a quem executa. O retrabalho é, em grande parte, um problema de dados.

Entre 10% e 25% do custo da obra vai para refazer trabalho

O número de referência vem do Reino Unido. A GIRI, uma iniciativa da indústria de construção britânica, estimou na sua investigação fundadora de 2016 que o erro evitável custa à construção do Reino Unido entre 10 mil e 25 mil milhões de libras por ano, o equivalente a 10% a 25% do custo de projeto.

A parte diretamente visível é muito menor: cerca de 5 mil milhões de libras por ano em custos diretos de erro. O resto está escondido em custos indiretos, desperdício de processo que ninguém regista e defeitos que só aparecem depois da entrega. É por isso que a intuição de quem gere a obra falha para baixo: o que se vê nos relatórios é a fração menor do custo real.

Do outro lado do Atlântico, o padrão repete-se. O Navigant Construction Forum, num estudo norte-americano de 2012, mediu o retrabalho direto em cerca de 5% do custo de construção em média. Quando somou os custos indiretos, como supervisão adicional, encargos gerais e perdas de produtividade, o valor aproximou-se de 9% do custo total do projeto. Duas geografias, duas metodologias, a mesma conclusão: o custo visível do retrabalho quase duplica quando se contam os efeitos indiretos.

O que aparece nos relatórios é um quarto do problema

A investigação da GIRI decompôs o custo médio do erro, que situou em cerca de 21% do custo de projeto, em quatro parcelas. Só uma delas costuma aparecer na contabilidade da obra.

Parcela do custo do erroPeso no custo de projetoAparece nos registos da obra?
Custos diretos de erro (refazer, demolir, substituir)5%Sim, em parte
Desperdício de processo não registado6%Não
Custos indiretos (atrasos, supervisão, perturbação do planeamento)7%Raramente
Defeitos latentes (aparecem depois da entrega)3%Só quando é tarde

Os números são do Reino Unido e a decomposição foi divulgada a partir da investigação da GIRI pela consultora Bourton Group. A proporção interessa mais do que os decimais: por cada euro de retrabalho que a empresa consegue apontar, há aproximadamente três que não constam em lado nenhum. Uma construtora que estime o seu retrabalho olhando para as notas de crédito e para as horas de correção registadas está a ver a ponta do icebergue e a tomar decisões com base nela.

Este é o padrão clássico do estimado contra o medido. Perguntado de chapa, um diretor de obra dirá que o retrabalho “anda aí nuns dois ou três por cento, nas obras piores”. Os estudos que somaram tudo, no Reino Unido e nos Estados Unidos, chegaram a valores entre 9% e 25%. A diferença entre as duas respostas é precisamente a parte que ninguém regista.

Quase metade do retrabalho nasce de má informação

O estudo “Construction Disconnected”, da FMI com a PlanGrid, inquiriu cerca de 600 líderes de construção nos Estados Unidos em 2018 e chegou ao número que liga o retrabalho aos dados: 48% do retrabalho tem origem em dados deficientes e má comunicação, num custo estimado de 31,3 mil milhões de dólares por ano só na construção norte-americana.

Vale a pena traduzir o que isto significa em obra:

  • Versões erradas de desenhos. A equipa executa sobre a revisão C quando o projeto já vai na E. O trabalho está bem feito; está é feito sobre informação morta.
  • Alterações que não se comunicam. O dono de obra aprova uma alteração na reunião de sexta-feira e a decisão fica na ata, no email ou na cabeça de alguém. Na segunda, o estaleiro continua a executar a versão antiga.
  • Medições e registos que não chegam. O que foi realmente executado, com que quantidades e em que condições, fica em fotografias no telemóvel e em folhas soltas. Quando a informação finalmente chega ao escritório, já não vai a tempo de evitar o erro seguinte.

O mesmo estudo da FMI e da PlanGrid mediu o custo em tempo: os trabalhadores da construção gastam em média 3,9 horas por semana a lidar com erros e retrabalho. E o retrabalho é só uma das fugas: no total, o inquérito estimou que as equipas passam 35% do tempo, cerca de 14 horas por semana, em atividades não produtivas, incluindo 5,5 horas à procura de informação do projeto e 4,7 horas a resolver conflitos, num custo laboral de 177,5 mil milhões de dólares por ano nos Estados Unidos. Procurar informação consome mais tempo do que corrigir erros. Muitas vezes é a mesma história em dois capítulos: primeiro não se encontrou a informação certa, depois refez-se o que se executou sem ela.

O retrabalho é o sintoma; o circuito de informação é a causa

Se metade do retrabalho nasce de má informação, a pergunta útil não é “quem executou mal?”, é “por onde circula a informação desta obra?”. E a resposta, na maioria das empresas, é conhecida: por ficheiros e por pessoas.

O relatório de tecnologia na construção da JBKnowledge, um inquérito anual ao setor, registou em 2019 que 64,9% dos profissionais usavam folhas de cálculo no fluxo de orçamentação e 53,6% na contabilidade. Na edição de 2021, mais de metade dos inquiridos transferia dados manualmente entre aplicações e mais de 40% preferia folhas de cálculo a software dedicado para gestão de projeto. A folha de cálculo não é o vilão; é uma ferramenta legítima. O problema é o que acontece entre folhas: cada transferência manual, cada versão guardada com outro nome, cada quantidade reescrita à mão é uma oportunidade de a obra e o escritório deixarem de falar do mesmo número.

Isto ajuda a explicar um facto mais amplo. Segundo o McKinsey Global Institute, no relatório “Reinventing Construction” de 2017, a produtividade do trabalho na construção cresceu cerca de 1% ao ano nas últimas duas décadas, contra 2,8% na economia mundial e 3,6% na indústria transformadora. Um setor onde a informação anda a pé entre o estaleiro e o escritório dificilmente ganha produtividade ao ritmo de uma fábrica onde os dados circulam sozinhos.

Porque é que nenhum orçamento tem a linha “retrabalho”

Há razões práticas para o retrabalho não aparecer nos orçamentos, e nenhuma delas é boa notícia.

A primeira é contabilística: refazer trabalho consome as mesmas rubricas que fazê-lo, as mesmas horas, os mesmos materiais, as mesmas máquinas. Sem um código próprio de registo, o retrabalho dissolve-se nos custos normais da obra e sai na fotografia final como “desvio”, sem causa atribuída.

A segunda é cultural: assumir uma percentagem de retrabalho no orçamento parece admitir incompetência antes de começar. É mais confortável orçamentar como se tudo fosse ser feito uma vez, e depois justificar o desvio com imprevistos. O resultado é que a margem de contingência absorve calada um custo que tem causas identificáveis e, em quase metade dos casos medidos pela FMI, causas de informação, que são das mais baratas de atacar.

A terceira é a falta de medição. Não se orçamenta o que nunca se mediu. E aqui Portugal tem um agravante honesto de assinalar: não encontrámos nenhum estudo dedicado ao custo do retrabalho na construção portuguesa. Os números deste artigo vêm do Reino Unido e dos Estados Unidos. Não há razão estrutural para acreditar que uma obra portuguesa escape ao padrão, os processos e as ferramentas são os mesmos, mas o número exato de cada empresa só ela o pode medir.

Sobre o terreno onde essa medição aconteceria, os dados portugueses existem e não são animadores: segundo o Índice de Intensidade Digital de 2024, compilado pela ANACOM a partir de dados do INE e do Eurostat, 25,2% das empresas portuguesas com 10 ou mais empregados têm intensidade digital “muito baixa”, e só 5,5% das pequenas empresas atingem o nível “muito alto”, contra 40,5% das grandes. O fosso é sobretudo de dimensão de empresa. É exatamente o segmento das PMEs de construção.

Medir o retrabalho não exige sistemas novos

A boa notícia esconde-se na causa. Se quase metade do retrabalho nasce de má informação, então quase metade do retrabalho se ataca sem betão, sem grua e sem contratar mais ninguém: organizando o circuito por onde desenhos, medições e alterações circulam entre o escritório e a obra.

E a matéria-prima já existe. Uma construtora média já produz, todos os dias, os dados de que precisa: autos de medição, registos de horas, faturas de fornecedores, atas de reunião, emails de aprovação de alterações, fotografias de obra. O que falta não é informação; é a informação estar num circuito onde a versão certa chega a quem executa e o que se executa fica registado com causa. É esse tipo de trabalho, organizar dados que já existem em vez de instalar sistemas novos, que transforma o retrabalho de um desvio misterioso num custo com nome, causa e tendência. O nosso caso de organização de dados, fora da construção, mostra esta mesma lógica, e ela transfere-se inteira: primeiro vê-se o problema medido, depois corrige-se.

Por onde começar

Quatro passos que uma construtora pode dar sozinha, sem comprar nada:

  1. Crie um código de registo para retrabalho. Nas horas e nos materiais, use uma marca simples que distinga “fazer” de “refazer”. Sem isto, tudo o resto é opinião. Um mês de registo honesto numa única obra já dá um número próprio para comparar com os 5% diretos medidos pelo Navigant.
  2. Registe a causa, não só o custo. Para cada episódio de retrabalho, escreva uma linha: o que se refez e porquê (desenho desatualizado, alteração não comunicada, medição errada, execução deficiente). É esta coluna que revela se a sua empresa segue o padrão dos 48% da FMI.
  3. Ponha um dono em cada documento vivo. Para cada obra, defina quem controla a versão atual do projeto e por que via ela chega ao estaleiro. Se a resposta tiver mais de um nome ou mais de um canal, encontrou um dos sítios por onde o retrabalho entra.
  4. Feche o circuito das alterações. Uma alteração só existe quando estiver registada no mesmo sítio onde vive o projeto e confirmada por quem executa. Enquanto viver num email, é retrabalho à espera de acontecer.
  5. Ao fim de três meses, some. Multiplique o retrabalho direto que registou pelo fator dos estudos (o dobro, segundo o Navigant; até quatro vezes, segundo a decomposição da GIRI) e compare com a margem da obra. É a essa luz que se decide quanto vale a pena investir no circuito de informação.

Perguntas frequentes

Quanto custa o retrabalho na construção?

Segundo a Get It Right Initiative, do Reino Unido, o erro evitável custa entre 10% e 25% do custo de projeto; o custo direto ronda os 5% e o resto são custos indiretos, desperdício não registado e defeitos latentes. O Navigant Construction Forum, nos Estados Unidos, chegou a valores próximos: cerca de 5% de retrabalho direto, que se aproxima de 9% do custo total com os indiretos.

Qual é a principal causa do retrabalho em obra?

No inquérito da FMI com a PlanGrid, nos Estados Unidos, 48% do retrabalho tinha origem em dados deficientes e má comunicação: versões desatualizadas de desenhos, alterações não comunicadas e informação que não chega a quem executa. Quase metade do retrabalho medido não nasce, portanto, de má execução, mas de má informação.

Como se mede o retrabalho numa empresa de construção?

Com um código de registo próprio nas horas e nos materiais que distinga trabalho novo de trabalho refeito, e uma coluna de causa em cada episódio. Sem essa marca, o retrabalho dissolve-se nos custos normais da obra e aparece no fim como desvio sem explicação.

Há dados sobre o retrabalho na construção em Portugal?

Não encontrámos estudos dedicados ao custo do retrabalho na construção portuguesa. Os números de referência vêm do Reino Unido (GIRI) e dos Estados Unidos (Navigant, FMI/PlanGrid). Cada empresa pode, no entanto, medir o seu próprio número com os registos que já produz.

Reduzir o retrabalho exige software de gestão de obra?

Não necessariamente. Como quase metade do retrabalho medido nasce de má informação, o primeiro ganho vem de organizar o circuito existente: uma versão de projeto com dono, alterações registadas num sítio único e retrabalho apontado com causa. Ferramentas ajudam depois; primeiro tem de existir o circuito.


Se quiser perceber quanto do desvio das suas obras é retrabalho, e quanto desse retrabalho é informação, uma conversa de 30 minutos chega para avaliar o que os seus registos já permitem medir. Explicamos como trabalhamos antes de qualquer compromisso.

Fontes

Este problema existe na sua fábrica?

Uma conversa de 30 minutos chega para perceber se este padrão existe na sua operação. Se fizer sentido, avançamos para uma visita.