Retrabalho na construção: a percentagem da obra que ninguém orçamenta
Refazer trabalho consome 10 a 25% do custo de obra e quase metade nasce de má informação. O que dizem os estudos e por onde começar a medir.
Nenhum orçamento de obra tem uma linha que diga “refazer o que já estava feito”. E no entanto essa linha invisível é, segundo a investigação do setor, uma das maiores rubricas da obra: a Get It Right Initiative (GIRI), uma iniciativa da indústria de construção do Reino Unido, concluiu em 2016 que o erro evitável consome entre 10% e 25% do custo de projeto. Não é aço nem mão-de-obra a mais: é trabalho que já tinha sido pago uma vez e teve de ser pago outra.
Quem anda em obra reconhece o fenómeno, mas quase nunca o vê somado. São episódios conhecidos: a parede que se abre porque a especialidade passou onde não devia, a betonagem que se corrige porque o desenho em obra era a versão anterior, o revestimento que se arranca porque a alteração do cliente ficou num email que não chegou ao encarregado. Cada episódio parece pequeno e pontual. A soma não é nem uma coisa nem outra.
E há um segundo número que muda a natureza do problema. Um estudo da consultora FMI com a PlanGrid, feito nos Estados Unidos em 2018, estimou que 48% do retrabalho tem origem em dados deficientes e má comunicação. Quase metade do trabalho refeito não nasce de má execução. Nasce de informação errada, desatualizada ou que não chegou a quem executa. O retrabalho é, em grande parte, um problema de dados.
Entre 10% e 25% do custo da obra vai para refazer trabalho
O número de referência vem do Reino Unido. A GIRI, uma iniciativa da indústria de construção britânica, estimou na sua investigação fundadora de 2016 que o erro evitável custa à construção do Reino Unido entre 10 mil e 25 mil milhões de libras por ano, o equivalente a 10% a 25% do custo de projeto.
A parte diretamente visível é muito menor: cerca de 5 mil milhões de libras por ano em custos diretos de erro. O resto está escondido em custos indiretos, desperdício de processo que ninguém regista e defeitos que só aparecem depois da entrega. É por isso que a intuição de quem gere a obra falha para baixo: o que se vê nos relatórios é a fração menor do custo real.
Do outro lado do Atlântico, o padrão repete-se. O Navigant Construction Forum, num estudo norte-americano de 2012, mediu o retrabalho direto em cerca de 5% do custo de construção em média. Quando somou os custos indiretos, como supervisão adicional, encargos gerais e perdas de produtividade, o valor aproximou-se de 9% do custo total do projeto. Duas geografias, duas metodologias, a mesma conclusão: o custo visível do retrabalho quase duplica quando se contam os efeitos indiretos.
O que aparece nos relatórios é um quarto do problema
A investigação da GIRI decompôs o custo médio do erro, que situou em cerca de 21% do custo de projeto, em quatro parcelas. Só uma delas costuma aparecer na contabilidade da obra.
| Parcela do custo do erro | Peso no custo de projeto | Aparece nos registos da obra? |
|---|---|---|
| Custos diretos de erro (refazer, demolir, substituir) | 5% | Sim, em parte |
| Desperdício de processo não registado | 6% | Não |
| Custos indiretos (atrasos, supervisão, perturbação do planeamento) | 7% | Raramente |
| Defeitos latentes (aparecem depois da entrega) | 3% | Só quando é tarde |
Os números são do Reino Unido e a decomposição foi divulgada a partir da investigação da GIRI pela consultora Bourton Group. A proporção interessa mais do que os decimais: por cada euro de retrabalho que a empresa consegue apontar, há aproximadamente três que não constam em lado nenhum. Uma construtora que estime o seu retrabalho olhando para as notas de crédito e para as horas de correção registadas está a ver a ponta do icebergue e a tomar decisões com base nela.
Este é o padrão clássico do estimado contra o medido. Perguntado de chapa, um diretor de obra dirá que o retrabalho “anda aí nuns dois ou três por cento, nas obras piores”. Os estudos que somaram tudo, no Reino Unido e nos Estados Unidos, chegaram a valores entre 9% e 25%. A diferença entre as duas respostas é precisamente a parte que ninguém regista.
Quase metade do retrabalho nasce de má informação
O estudo “Construction Disconnected”, da FMI com a PlanGrid, inquiriu cerca de 600 líderes de construção nos Estados Unidos em 2018 e chegou ao número que liga o retrabalho aos dados: 48% do retrabalho tem origem em dados deficientes e má comunicação, num custo estimado de 31,3 mil milhões de dólares por ano só na construção norte-americana.
Vale a pena traduzir o que isto significa em obra:
- Versões erradas de desenhos. A equipa executa sobre a revisão C quando o projeto já vai na E. O trabalho está bem feito; está é feito sobre informação morta.
- Alterações que não se comunicam. O dono de obra aprova uma alteração na reunião de sexta-feira e a decisão fica na ata, no email ou na cabeça de alguém. Na segunda, o estaleiro continua a executar a versão antiga.
- Medições e registos que não chegam. O que foi realmente executado, com que quantidades e em que condições, fica em fotografias no telemóvel e em folhas soltas. Quando a informação finalmente chega ao escritório, já não vai a tempo de evitar o erro seguinte.
O mesmo estudo da FMI e da PlanGrid mediu o custo em tempo: os trabalhadores da construção gastam em média 3,9 horas por semana a lidar com erros e retrabalho. E o retrabalho é só uma das fugas: no total, o inquérito estimou que as equipas passam 35% do tempo, cerca de 14 horas por semana, em atividades não produtivas, incluindo 5,5 horas à procura de informação do projeto e 4,7 horas a resolver conflitos, num custo laboral de 177,5 mil milhões de dólares por ano nos Estados Unidos. Procurar informação consome mais tempo do que corrigir erros. Muitas vezes é a mesma história em dois capítulos: primeiro não se encontrou a informação certa, depois refez-se o que se executou sem ela.
O retrabalho é o sintoma; o circuito de informação é a causa
Se metade do retrabalho nasce de má informação, a pergunta útil não é “quem executou mal?”, é “por onde circula a informação desta obra?”. E a resposta, na maioria das empresas, é conhecida: por ficheiros e por pessoas.
O relatório de tecnologia na construção da JBKnowledge, um inquérito anual ao setor, registou em 2019 que 64,9% dos profissionais usavam folhas de cálculo no fluxo de orçamentação e 53,6% na contabilidade. Na edição de 2021, mais de metade dos inquiridos transferia dados manualmente entre aplicações e mais de 40% preferia folhas de cálculo a software dedicado para gestão de projeto. A folha de cálculo não é o vilão; é uma ferramenta legítima. O problema é o que acontece entre folhas: cada transferência manual, cada versão guardada com outro nome, cada quantidade reescrita à mão é uma oportunidade de a obra e o escritório deixarem de falar do mesmo número.
Isto ajuda a explicar um facto mais amplo. Segundo o McKinsey Global Institute, no relatório “Reinventing Construction” de 2017, a produtividade do trabalho na construção cresceu cerca de 1% ao ano nas últimas duas décadas, contra 2,8% na economia mundial e 3,6% na indústria transformadora. Um setor onde a informação anda a pé entre o estaleiro e o escritório dificilmente ganha produtividade ao ritmo de uma fábrica onde os dados circulam sozinhos.
Porque é que nenhum orçamento tem a linha “retrabalho”
Há razões práticas para o retrabalho não aparecer nos orçamentos, e nenhuma delas é boa notícia.
A primeira é contabilística: refazer trabalho consome as mesmas rubricas que fazê-lo, as mesmas horas, os mesmos materiais, as mesmas máquinas. Sem um código próprio de registo, o retrabalho dissolve-se nos custos normais da obra e sai na fotografia final como “desvio”, sem causa atribuída.
A segunda é cultural: assumir uma percentagem de retrabalho no orçamento parece admitir incompetência antes de começar. É mais confortável orçamentar como se tudo fosse ser feito uma vez, e depois justificar o desvio com imprevistos. O resultado é que a margem de contingência absorve calada um custo que tem causas identificáveis e, em quase metade dos casos medidos pela FMI, causas de informação, que são das mais baratas de atacar.
A terceira é a falta de medição. Não se orçamenta o que nunca se mediu. E aqui Portugal tem um agravante honesto de assinalar: não encontrámos nenhum estudo dedicado ao custo do retrabalho na construção portuguesa. Os números deste artigo vêm do Reino Unido e dos Estados Unidos. Não há razão estrutural para acreditar que uma obra portuguesa escape ao padrão, os processos e as ferramentas são os mesmos, mas o número exato de cada empresa só ela o pode medir.
Sobre o terreno onde essa medição aconteceria, os dados portugueses existem e não são animadores: segundo o Índice de Intensidade Digital de 2024, compilado pela ANACOM a partir de dados do INE e do Eurostat, 25,2% das empresas portuguesas com 10 ou mais empregados têm intensidade digital “muito baixa”, e só 5,5% das pequenas empresas atingem o nível “muito alto”, contra 40,5% das grandes. O fosso é sobretudo de dimensão de empresa. É exatamente o segmento das PMEs de construção.
Medir o retrabalho não exige sistemas novos
A boa notícia esconde-se na causa. Se quase metade do retrabalho nasce de má informação, então quase metade do retrabalho se ataca sem betão, sem grua e sem contratar mais ninguém: organizando o circuito por onde desenhos, medições e alterações circulam entre o escritório e a obra.
E a matéria-prima já existe. Uma construtora média já produz, todos os dias, os dados de que precisa: autos de medição, registos de horas, faturas de fornecedores, atas de reunião, emails de aprovação de alterações, fotografias de obra. O que falta não é informação; é a informação estar num circuito onde a versão certa chega a quem executa e o que se executa fica registado com causa. É esse tipo de trabalho, organizar dados que já existem em vez de instalar sistemas novos, que transforma o retrabalho de um desvio misterioso num custo com nome, causa e tendência. O nosso caso de organização de dados, fora da construção, mostra esta mesma lógica, e ela transfere-se inteira: primeiro vê-se o problema medido, depois corrige-se.
Por onde começar
Quatro passos que uma construtora pode dar sozinha, sem comprar nada:
- Crie um código de registo para retrabalho. Nas horas e nos materiais, use uma marca simples que distinga “fazer” de “refazer”. Sem isto, tudo o resto é opinião. Um mês de registo honesto numa única obra já dá um número próprio para comparar com os 5% diretos medidos pelo Navigant.
- Registe a causa, não só o custo. Para cada episódio de retrabalho, escreva uma linha: o que se refez e porquê (desenho desatualizado, alteração não comunicada, medição errada, execução deficiente). É esta coluna que revela se a sua empresa segue o padrão dos 48% da FMI.
- Ponha um dono em cada documento vivo. Para cada obra, defina quem controla a versão atual do projeto e por que via ela chega ao estaleiro. Se a resposta tiver mais de um nome ou mais de um canal, encontrou um dos sítios por onde o retrabalho entra.
- Feche o circuito das alterações. Uma alteração só existe quando estiver registada no mesmo sítio onde vive o projeto e confirmada por quem executa. Enquanto viver num email, é retrabalho à espera de acontecer.
- Ao fim de três meses, some. Multiplique o retrabalho direto que registou pelo fator dos estudos (o dobro, segundo o Navigant; até quatro vezes, segundo a decomposição da GIRI) e compare com a margem da obra. É a essa luz que se decide quanto vale a pena investir no circuito de informação.
Perguntas frequentes
Quanto custa o retrabalho na construção?
Segundo a Get It Right Initiative, do Reino Unido, o erro evitável custa entre 10% e 25% do custo de projeto; o custo direto ronda os 5% e o resto são custos indiretos, desperdício não registado e defeitos latentes. O Navigant Construction Forum, nos Estados Unidos, chegou a valores próximos: cerca de 5% de retrabalho direto, que se aproxima de 9% do custo total com os indiretos.
Qual é a principal causa do retrabalho em obra?
No inquérito da FMI com a PlanGrid, nos Estados Unidos, 48% do retrabalho tinha origem em dados deficientes e má comunicação: versões desatualizadas de desenhos, alterações não comunicadas e informação que não chega a quem executa. Quase metade do retrabalho medido não nasce, portanto, de má execução, mas de má informação.
Como se mede o retrabalho numa empresa de construção?
Com um código de registo próprio nas horas e nos materiais que distinga trabalho novo de trabalho refeito, e uma coluna de causa em cada episódio. Sem essa marca, o retrabalho dissolve-se nos custos normais da obra e aparece no fim como desvio sem explicação.
Há dados sobre o retrabalho na construção em Portugal?
Não encontrámos estudos dedicados ao custo do retrabalho na construção portuguesa. Os números de referência vêm do Reino Unido (GIRI) e dos Estados Unidos (Navigant, FMI/PlanGrid). Cada empresa pode, no entanto, medir o seu próprio número com os registos que já produz.
Reduzir o retrabalho exige software de gestão de obra?
Não necessariamente. Como quase metade do retrabalho medido nasce de má informação, o primeiro ganho vem de organizar o circuito existente: uma versão de projeto com dono, alterações registadas num sítio único e retrabalho apontado com causa. Ferramentas ajudam depois; primeiro tem de existir o circuito.
Se quiser perceber quanto do desvio das suas obras é retrabalho, e quanto desse retrabalho é informação, uma conversa de 30 minutos chega para avaliar o que os seus registos já permitem medir. Explicamos como trabalhamos antes de qualquer compromisso.
Fontes
- Get It Right Initiative — About — GIRI, investigação fundadora sobre o custo do erro na construção do Reino Unido, 2016.
- Tackling rework in UK construction: why it’s time to build right first time — Bourton Group, decomposição do custo do erro a partir da investigação da GIRI, 2016.
- The Impact of Rework on Construction & Some Practical Remedies — Navigant Construction Forum, 2012.
- Construction Disconnected — FMI / PlanGrid, 2018 (síntese: Autodesk Construction Blog).
- Construction Technology Report (ConTech) — JBKnowledge, edições de 2019 e 2021.
- Reinventing Construction: A Route to Higher Productivity — McKinsey Global Institute, 2017.
- Índice de Intensidade Digital 2024 — ANACOM / INE / Eurostat, 2024.