Fábricas a 83% da capacidade: porque é que a indústria portuguesa só cresce a produzir mais por hora
A indústria portuguesa trabalha a 82,7% da capacidade e dois terços das fábricas dizem que nada as limita. O que isso diz sobre onde está o crescimento.
No inquérito europeu à indústria do 3.º trimestre de 2026, as fábricas portuguesas trabalhavam a 82,7% da capacidade instalada, contra 78,3% na média da União Europeia. E 66,4% diziam que nada lhes limitava a produção, contra 40% na UE. A procura, a mão de obra e o equipamento pesam todos menos em Portugal do que na Europa. O que a indústria portuguesa não tem é produtividade por hora: gera menos de metade do valor acrescentado europeu por cada hora trabalhada.
Estes números vêm do inquérito de conjuntura à indústria que a Comissão Europeia faz todos os trimestres, e que o Eurostat publica por país. Não são estimativas de consultoras: são as respostas das próprias empresas, com a mesma pergunta em todos os Estados-Membros.
As fábricas portuguesas estão cheias
A utilização da capacidade instalada mede a parte do que as fábricas conseguiriam produzir que estão, de facto, a produzir. Em Portugal, tem estado sempre acima da média europeia nos últimos dois anos:
| Trimestre | Portugal | UE |
|---|---|---|
| 1.º trim. 2024 | 80,6% | 78,7% |
| 3.º trim. 2024 | 81,8% | 78,2% |
| 1.º trim. 2025 | 81,2% | 77,0% |
| 3.º trim. 2025 | 81,7% | 78,3% |
| 1.º trim. 2026 | 83,0% | 77,5% |
| 3.º trim. 2026 | 82,7% | 78,3% |
Fonte: Eurostat, inquérito à indústria (ei_bsin_q_r2), dados não ajustados.
Uma fábrica a 83% não está no limite físico. Mas está perto do ponto em que as encomendas novas começam a competir com as existentes pelas mesmas máquinas e pelos mesmos turnos. É o ponto em que um atraso numa linha se propaga às outras, e em que cada paragem não planeada custa uma entrega.
E dizem que nada as limita
O mesmo inquérito pergunta às empresas o que lhes limita a produção. As respostas de Portugal e da UE no 3.º trimestre de 2026:
| Fator que limita a produção | Portugal | UE |
|---|---|---|
| Nenhum | 66,4% | 40,0% |
| Procura insuficiente | 17,7% | 33,5% |
| Mão de obra | 11,9% | 18,0% |
| Equipamento | 5,4% | 13,3% |
| Outros | 4,6% | 12,6% |
| Restrições financeiras | 4,3% | 5,2% |
Percentagem de empresas que indicam cada fator. Uma empresa pode indicar mais do que um.
Há uma leitura otimista: a procura está a chegar, e a mão de obra e o equipamento não estão a travar. E há uma leitura menos confortável. Uma fábrica que trabalha perto da capacidade e não identifica nenhum limite está a assumir que a capacidade que tem é a que tem. Raramente se pergunta quanto da capacidade instalada está a ser perdida em paragens curtas, em mudanças de referência, em lentidão e em refugo.
A capacidade escondida está no OEE
A utilização da capacidade é a visão da direção: quantas máquinas estão ocupadas. O OEE é a visão da linha: quanto de cada máquina ocupada está a produzir peças boas à velocidade certa.
A distância entre as duas é grande. A Evocon, que mediu mais de 3 500 máquinas em mais de 50 países, encontrou o OEE real concentrado nos 55 a 60%. Ou seja, uma fábrica pode ter as máquinas quase todas ocupadas e, mesmo assim, estar a aproveitar pouco mais de metade do que elas conseguiriam produzir. Explicamos de onde vem essa diferença no artigo sobre o OEE real.
É por isso que uma fábrica “cheia” raramente está cheia. Está ocupada. A capacidade que falta para crescer costuma estar dentro das máquinas que já trabalham, e não numa máquina nova.
Porque é que o crescimento tem de vir da produtividade
Os números de produtividade do Eurostat fecham o raciocínio. Em 2025, a produtividade por hora trabalhada em Portugal foi de 66,7% da média europeia, em paridades de poder de compra, e cada pessoa trabalhou 1 904 horas, contra 1 604 na UE. Na indústria transformadora, em 2023, cada hora de trabalho gerou 23,65 euros de valor acrescentado em Portugal, contra 53,21 euros na UE.
Com a capacidade quase ocupada e as horas de trabalho já acima da média europeia, os caminhos para crescer são três: investir em mais capacidade, fazer mais horas, ou produzir mais em cada hora e em cada máquina. O primeiro é caro e lento. O segundo já está esgotado. O terceiro é o único que não exige comprar nada antes de se provar. Desenvolvemos este ponto na página sobre produtividade na indústria.
Por onde começar
- Meça o OEE real de uma linha durante duas semanas. Com as paragens curtas incluídas. Compare com o valor que se diz nas reuniões.
- Registe as paragens com causa. Não “avaria”, mas qual máquina, quanto tempo e porquê. Ao fim de um mês, as três primeiras causas explicam a maior parte do tempo perdido.
- Conte as mudanças de referência. Numa fábrica cheia, cada setup evitável é capacidade devolvida. O planeamento que as agrupa é produtividade sem investimento.
- Some o refugo em horas de máquina. Uma peça rejeitada é tempo de máquina que já não volta.
- Só depois pense em capacidade nova. Se a linha medida já estiver perto do seu melhor, o investimento está justificado com números.
Nada disto exige um sistema novo. Os dados estão nos PLCs, no ERP e nos registos de turno. Explicamos como medir cada indicador no artigo sobre como medir a produtividade numa fábrica.
Perguntas frequentes
Qual é a utilização da capacidade da indústria portuguesa?
Segundo o inquérito à indústria publicado pelo Eurostat, no 3.º trimestre de 2026 as fábricas portuguesas trabalhavam a 82,7% da capacidade instalada, contra 78,3% na média da União Europeia. Portugal tem estado acima da média europeia em todos os trimestres desde 2024.
O que limita a produção da indústria portuguesa?
No mesmo inquérito, 66,4% das empresas portuguesas disseram que nenhum fator lhes limitava a produção, contra 40% na UE. As que indicaram limites apontaram sobretudo a procura insuficiente (17,7%) e a mão de obra (11,9%), ambos abaixo da média europeia.
A falta de mão de obra limita a indústria em Portugal?
Menos do que na média europeia. No 3.º trimestre de 2026, 11,9% das empresas industriais portuguesas indicaram a mão de obra como fator limitativo, contra 18% na UE.
Qual é a diferença entre utilização da capacidade e OEE?
A utilização da capacidade mede quanto das máquinas está ocupado. O OEE mede quanto de cada máquina ocupada está a produzir peças boas à velocidade certa. Uma fábrica pode ter uma utilização alta e um OEE baixo, se as máquinas estiverem ocupadas mas com paragens, lentidão ou refugo.
Como aumentar a produção sem comprar máquinas novas?
Recuperando a capacidade que se perde nas máquinas existentes: medindo e reduzindo as paragens curtas, agrupando as mudanças de referência no planeamento, antecipando avarias e reduzindo o refugo. O primeiro passo é medir o OEE real, porque o estimado costuma sair acima do medido.
Se a sua fábrica está cheia e a próxima encomenda grande obrigaria a escolher entre clientes, uma conversa de 30 minutos chega para perceber quanta capacidade está escondida nas máquinas que já tem. Explicamos como trabalhamos antes de qualquer compromisso.
Fontes
- Industry survey results, quarterly (ei_bsin_q_r2) · Eurostat e Comissão Europeia, inquérito de conjuntura à indústria, 1.º trimestre de 2024 a 3.º trimestre de 2026, dados não ajustados. Utilização da capacidade e fatores que limitam a produção.
- Labour productivity per person employed and hour worked (tesem160) · Eurostat, dados de 2025. Produtividade por hora trabalhada em percentagem da UE27.
- Labour productivity and unit labour costs (nama_10_lp_ulc) · Eurostat, dados de 2025. Horas trabalhadas por pessoa empregada.
- Enterprises by detailed NACE Rev. 2 activity (sbs_ovw_act) · Eurostat, indústria transformadora, dados de 2023. Valor acrescentado por hora trabalhada.
- World-Class OEE: Industry Benchmarks from More Than 50 Countries · Evocon, 3 500+ máquinas, 2023-2024.