Orçamentar com margem e não saber onde ela foi: o custo real na metalomecânica
Muitas metalomecânicas orçamentam com margem mas no fim não sabem quanto gastaram em material, tempo e retrabalho. Como fechar essa lacuna.
O custo real de uma obra de metalomecânica tem quatro parcelas: materiais, tempos, subcontratação e retrabalho. A margem real apura-se imputando as quatro a cada obra e comparando com o orçamento. O retrabalho é a parcela mais traiçoeira, porque raramente se regista com o seu nome: uma peça refeita consome material e horas outra vez, mas contabiliza-se como se tivesse sido feita uma só.
A metalomecânica é um negócio de obra: cada trabalho é orçamentado com uma margem prevista, e depois produz-se. Em muitas empresas o padrão é este: orçamenta-se com uma margem à cabeça, mas no fim não se sabe quanto se gastou de facto em materiais, tempos, subcontratação e retrabalho. A obra entrega-se, fatura-se, e a margem real fica por apurar. Assume-se que correu como o orçamento previa, sem confirmar.
Num setor com peso relevante nas exportações industriais nacionais e onde as margens são disputadas, não saber a margem real de cada obra é um risco caro. As obras que perdem dinheiro escondem-se atrás das que ganham, e a empresa continua a orçamentar com base em pressupostos que nunca foram confrontados com a realidade.
As quatro parcelas onde o custo real foge
O custo real de uma obra de metalomecânica tem quatro parcelas principais, e todas tendem a fugir ao orçamento:
- Materiais. O aço, o inox, o alumínio e os consumíveis. O orçamento assume um consumo; o real inclui a sucata, o material estragado, o que se cortou a mais. Ver o rendimento de material na metalomecânica.
- Tempos. As horas de corte, quinagem, soldadura, maquinação, montagem. O orçamento estima; o real inclui as afinações, os arranques, as esperas que não estavam previstas.
- Subcontratação. Tratamentos, galvanização, pintura, operações que se subcontratam. São custos que às vezes derrapam e que nem sempre são bem imputados à obra certa.
- Retrabalho. Peças que saíram mal e tiveram de ser refeitas. É a parcela mais invisível, porque raramente se regista como tal, e uma das mais caras.
Somadas, estas quatro parcelas decidem a margem real. E se nenhuma delas é comparada com o orçamento, a margem real fica desconhecida.
Porque é que o retrabalho é a parcela mais traiçoeira
Das quatro, o retrabalho é a que mais engana, porque raramente se regista com o seu nome. Uma peça que sai mal e é refeita consome material outra vez, horas outra vez, e às vezes subcontratação outra vez. Mas no fim contabiliza-se como se tivesse sido feita uma vez só. O tempo e o material do retrabalho diluem-se nos totais, e a obra parece ter custado o normal quando custou mais.
Registar o retrabalho de forma explícita, saber quanto material e quantas horas foram gastas a refazer, é muitas vezes a primeira revelação de uma metalomecânica que começa a medir o custo real. E pode ser um número maior do que se esperava.
A média esconde as obras que perdem
A defesa habitual é: “no conjunto, a empresa tem margem”. Pode ter, e ainda assim estar a perder dinheiro em várias obras que as outras compensam. A margem média apaga a diferença entre a obra que rendeu 25% e a que perdeu 5%.
Só o custeio por obra, que impute os custos reais das quatro parcelas a cada trabalho, revela essa distribuição. E o que ela pode mostrar é útil: um padrão nas obras que perdem. Muitas vezes é um tipo de trabalho, uma gama de complexidade, um cliente cujas alterações constantes comem margem, ou uma operação (frequentemente a soldadura ou a montagem) que derrapa sistematicamente. Saber qual permite orçamentar melhor e decidir que trabalho aceitar.
Os dados já existem, dispersos
Custear com verdade não exige um sistema novo de raiz. Muitas metalomecânicas já registam o essencial, disperso: as compras de material no ERP, as horas em folhas de obra ou apontamentos, as faturas de subcontratação, os registos de produção. O que falta é imputar tudo à obra certa e compará-lo com o orçamento. Os dados estão lá; o trabalho é juntá-los por obra.
A lógica é não gerar dados novos, mas organizar os que já existem para responder a uma pergunta que hoje fica sem resposta.
Por onde começar
- Escolha algumas obras recentes. Comece por um punhado de obras já entregues, de tipos diferentes, em vez do histórico todo.
- Junte as quatro parcelas por obra. Material, tempo, subcontratação e retrabalho, imputados a cada obra, com os dados que já existem.
- Registe o retrabalho à parte. É a parcela mais escondida. Sabê-la separadamente pode ser a maior revelação do exercício.
- Compare com o orçamento. A diferença entre a margem prevista e a real, por obra, é a informação que faltava. Onde é grande, há uma causa a investigar.
- Procure o padrão nas que perdem. As obras que ficam abaixo da margem prevista tendem a ter algo em comum. Esse padrão é o que melhora os orçamentos seguintes.
Perguntas frequentes
Porque é que muitas metalomecânicas não sabem a margem real das obras?
Porque orçamentam com uma margem à cabeça e no fim não comparam com o custo real de materiais, tempos, subcontratação e retrabalho. A obra entrega-se e fatura-se assumindo que correu como o orçamento previa. Sem essa comparação, as obras que perdem dinheiro escondem-se atrás das que ganham, e os orçamentos seguintes assentam em pressupostos nunca confrontados com a realidade.
Qual é a parcela de custo mais difícil de controlar?
O retrabalho, porque raramente se regista com o seu nome. Uma peça refeita consome material, horas e às vezes subcontratação outra vez, mas contabiliza-se como se tivesse sido feita uma só vez. Esse custo dilui-se nos totais e a obra parece ter custado o normal. Registar o retrabalho de forma explícita pode revelar um número maior do que se esperava.
Preciso de um sistema novo para custear as obras?
Não necessariamente. Muitas metalomecânicas já registam o essencial, disperso: compras no ERP, horas em folhas de obra, faturas de subcontratação, registos de produção. O que falta é imputar tudo à obra certa e compará-lo com o orçamento. Os dados existem; o trabalho é juntá-los por obra, não instalar um sistema de raiz.
Como é que o custeio real melhora os orçamentos futuros?
Ao revelar o padrão nas obras que perdem margem. Quando se compara real com orçamentado, pode aparecer um tipo de trabalho, uma complexidade, um cliente ou uma operação que derrapa sistematicamente. Conhecer esse padrão permite orçamentar os próximos trabalhos com estimativas ancoradas na realidade e decidir com mais critério que obras aceitar.
Se orçamenta com margem prevista mas não sabe onde ela foi, uma conversa de 30 minutos chega para perceber como custear as obras com os dados que já tem. Veja também como trabalhamos.
Fontes
- ERP para Indústria Metalomecânica em Portugal · Artsoft.
- Metalurgia e Metalomecânica · CCIP.