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Quanto custa, de facto, produzir um par? O custeio que a maioria estima

Muitas fábricas de calçado orçamentam com uma margem prevista e no fim não sabem o custo real. Porque é que o custeio estimado engana e como medi-lo.

agosto de 2026 · 6 min de leitura

Pergunte a uma fábrica de calçado quanto custa produzir um par de um determinado modelo e a resposta virá depressa: existe uma ficha de custo, com o material, a mão de obra, uma margem para despesas gerais. O problema é que essa ficha é um orçamento, feito antes de produzir, e o custo real, o que se gastou de facto, raramente é comparado com ela. A fábrica orçamenta com uma margem prevista e no fim não sabe se a cumpriu.

Esta é uma das lacunas mais caras de qualquer indústria de transformação, e no calçado, com séries curtas e muitos modelos, é particularmente perigosa. Porque quando o custo real não é medido, os modelos que perdem dinheiro escondem-se atrás dos que ganham, e a fábrica continua a produzir uns e outros sem saber quais são quais.

Orçamento e custo real são coisas diferentes

A ficha de custo é uma previsão: o que se espera gastar em pele, componentes, tempo de corte, costura, montagem. O custo real é o que aconteceu: a pele que rendeu menos do que o previsto, a série que precisou de mais preparações, o retrabalho de um lote com defeito, as horas extra para cumprir um prazo.

Entre um e outro há sempre diferença. A questão é o tamanho e a direção dessa diferença, e se ela é conhecida. Uma fábrica que só olha para o orçamento assume que ele se cumpre. Uma fábrica que mede o custo real sabe onde não se cumpre, e porquê.

Onde o custo real foge ao orçamento

Há parcelas que o orçamento tende a subestimar sistematicamente, e todas elas são maiores em séries curtas:

  • O rendimento da matéria-prima. O orçamento assume um rendimento de corte; a pele real rende muitas vezes menos, e essa diferença recai sobre poucos pares. Ver o rendimento do corte da pele.
  • As preparações. Cada mudança de modelo consome tempo que, numa série curta, pesa muito por par. O orçamento raramente o imputa bem.
  • O retrabalho e as segundas escolhas. Pares que precisaram de correção ou que saíram como segunda escolha são custo real que o orçamento não previu.
  • As horas extra e os fretes urgentes. Tudo o que foi preciso para cumprir um prazo apertado é custo que não estava na ficha.

Somadas, estas parcelas podem transformar um modelo aparentemente rentável num modelo que perde dinheiro. E sem custeio real, essa transformação é invisível.

Porque é que o custo médio esconde os modelos que perdem

A defesa habitual é: “no conjunto, a fábrica tem margem”. Pode ter, e ainda assim estar a perder dinheiro em vários modelos que os outros compensam. O custo médio da fábrica é uma média que apaga a diferença entre o modelo que rende 20% e o que perde 10%.

Só um custeio por ordem ou por modelo, que impute os custos reais a cada série produzida, revela essa distribuição. E o que essa visão costuma mostrar é desconfortável mas útil: um punhado de modelos que consomem margem sem que ninguém saiba, muitas vezes os de série mais curta ou de conceção mais complexa. Saber quais são permite decidir: repricar, redesenhar, ou deixar de os fazer.

Não é um projeto de meses

Custear com verdade não exige um sistema novo de raiz. Exige ligar dados que a fábrica já gera: o consumo real de material por ordem, os tempos reais de produção, o retrabalho registado, as horas imputadas. A maior parte destes dados já existe, dispersa entre o ERP, as folhas de produção e os registos de qualidade. O trabalho é juntá-los por ordem e compará-los com o orçamento.

É o mesmo princípio de tudo o que fazemos: não gerar dados novos, mas organizar os que já existem para responder a uma pergunta que hoje fica sem resposta.

Por onde começar

  1. Escolha alguns modelos para custear a sério. Não tente a fábrica inteira de início. Comece por modelos representativos, incluindo alguns de série curta.
  2. Junte o custo real por ordem. Material consumido, tempo gasto, retrabalho, para cada ordem desses modelos. Use o que o ERP e as folhas já registam.
  3. Compare com o orçamento. A diferença entre a ficha de custo e o custo real é a informação que faltava. Onde é grande, há uma causa a investigar.
  4. Ordene os modelos por margem real. A distribuição costuma revelar um grupo de modelos que perde dinheiro. Esses são a prioridade de decisão.
  5. Torne a comparação rotina. O valor não está num cálculo único, mas em comparar orçamento e real de forma continuada, para que os desvios apareçam cedo.

Perguntas frequentes

Porque é que o custeio estimado engana no calçado?

Porque a ficha de custo é um orçamento feito antes de produzir, e raramente é comparado com o custo real. Parcelas como o rendimento da pele, as preparações, o retrabalho e as horas extra tendem a ser subestimadas, e todas pesam mais em séries curtas. Sem comparação, a fábrica assume que o orçamento se cumpre quando muitas vezes não se cumpre.

Como é que um modelo pode perder dinheiro sem a fábrica saber?

Através do custo médio. Se a fábrica olha apenas para a margem do conjunto, os modelos que perdem dinheiro escondem-se atrás dos que ganham. Só um custeio por modelo, com custos reais imputados a cada série, revela quais rendem e quais consomem margem. Sem essa visão, produzem-se uns e outros sem distinção.

Preciso de um sistema novo para custear com verdade?

Não. Custear com verdade exige ligar dados que a fábrica já gera: consumo de material por ordem, tempos reais, retrabalho, horas imputadas. A maior parte já existe, dispersa entre ERP, folhas de produção e registos de qualidade. O trabalho é juntá-los por ordem e compará-los com o orçamento, não instalar um sistema de raiz.

Por onde começo a custear se tenho muitos modelos?

Por alguns modelos representativos, incluindo alguns de série curta, que são os que mais enganam. Junte o custo real por ordem e compare com o orçamento. A diferença mostra onde investigar, e ordenar os modelos por margem real costuma revelar um grupo que perde dinheiro. Esses são a prioridade; a fábrica inteira vem depois.


Se orçamenta com uma margem prevista mas não sabe qual cumpre, uma conversa de 30 minutos chega para perceber como custear com os dados que já tem. Veja também como trabalhamos.

Fontes

Este problema existe na sua fábrica?

Uma conversa de 30 minutos chega para perceber se este padrão existe na sua operação. Se fizer sentido, avançamos para uma visita.